Acabou uma era no automobilismo brasileiro (e o futuro não é nada bom)

O fim de semana passou, a corrida foi legal, meu trabalho foi um sucesso, mas precisamos admitir sem hipocrisia que o domingo marcou o fim de uma era do automobilismo brasileiro.

E tudo tende a piorar caso a comunidade não se una e trabalhe junto por sua sobrevivência.

Não somos mais o país do automobilismo há 23 anos e deixamos de ser protagonistas há oito. Não temos mais categorias de base e o que nos resta de alto nível é um campeonato de turismo protótipos (Stock Car) que vive andando na corda bamba e depende de um vínculo com uma emissora de TV para poder sobreviver e manter sua pose. Se colocarmos na balança a mídia espontânea contra a mídia paga, a paga vence disparada, infelizmente (a sala de imprensa é composta 90% por assessores).

Sem F1, esse interesse também pode acabar e a Stock Car corre o risco de voltar aos tempos agonizantes dos anos 80, uma vez que o campeonato está, sim inflacionado: onde já se viu uma temporada sem testes custar 3 milhões de reais? Mesmo com boas ideias da nova gestão, ainda falta muito para a Stock Car atrair o grande interesse que teve no boom de 2007, quando uma penca de ex-pilotos de F1 e Indy foi para lá buscar receber em parte o investimento ($) que fizeram em boa parte de suas carreiras.

Não temos pilotos prontos para chegar à F1 em curto prazo. Felipe Nasr desencanou, Pietro Fittipaldi ainda não está pronto, assim como Sergio Sette Câmara, e nenhum deles têm aquele apelo de novo Senna que a mídia brasileira tanto sonha. Os outros que estão na F3 nem sabem se vão conseguir algo competitivo no ano que vem – alguns já estão voltando para a bolha de segurança momentânea da Stock Car.

Temos um novo campeonato de caminhões, revitalizado após o fiasco de terem conseguído destruir uma série como a Fórmula Truck, mas não temos nada de monopostos. Graças a acordos financeiros, alguns campeonatos e torneios (como o Brasileiro de Kart) tentam manter a notoriedade passando no SporTV.

Temos muitos jornalistas bons e competentes, ávidos por velocidade e informação. Mas não temos mais interesse da grande mídia. A especializada ou tem prejuízo ou fica no zero a zero (por muito tempo jornalista ganhava dinheiro com automobilismo só se fosse da Globo, Folha ou Estadão e olhe lá – pergunte para o povo do Grande Prêmio como é sustentar o site com o baixíssimo interesse das empresas em patrocinar as coberturas).

Sem mídia, o público perde interesse. Aqui no Brasil sabemos como funciona: se não ganha, tchau. E o automobilismo teve sorte, teve duas sobrevidas (com Rubinho e Massa) na F1, mas desta vez não tem como. Agora é a hora que saberemos de verdade quem gosta de automobilismo ou quem gosta só do que ganha.

Mesmo a gente tendo viva e forte a imagem de Ayrton Senna na memória popular (e Lewis Hamilton ter se assumido discípulo) isso não será suficiente para manter o interesse no esporte. E, por conta de todas essas ondas de assalto que envergonharam o público, sem contar a babaquice do prefeito em querer privatizar o autódromo (e ainda se dar à desfaçatez de tirar proveito do pódio para aparecer), podemos ainda perder o GP do Brasil após o término do contrato, em 2019.

Se isso acontecer, é um rumo ao fundo do poço sem volta. Vamos virar uma Argentina piorada pós-Reutemann (lá eles têm apoio por lei de montadoras para fomentar o esporte local, ao contrário daqui, onde as montadoras só visam o lucro com carros frágeis porcamente feitos. Segundo o Wagner Gonzalez, não existe lei nenhuma e mesmo assim eles têm um envolvimento maciço das marcas). Já estamos nesse caminho, para falar a verdade.

E esse é o meu medo.

Como não somos donos do futuro, espero do fundo do meu coração que aconteça uma reviravolta e a gente volte a ter o protagonismo no esporte; caso contrário, eu também vou ter que arrumar outra coisa para fazer.