Lucas Di Grassi x Fox Sports Brasil: um case do que não se deve fazer por parte de um piloto

Você pode estar aqui só pela polêmica ou para entender o que aconteceu, mas uma coisa é certa: que esse caso sirva de exemplo para todo mundo, seja piloto, seja jornalista, seja fã.

Resumindo tudo num parágrafo: o bafafá começou quando um piloto, conhecido tanto pelo seu talento quanto por sua arrogância, não soube se expressar em uma rede social, causando um mal-estar com a emissora que transmite os dois campeonatos que ele disputa e queimando ainda mais sua imagem, já que praticamente todo mundo ficou do lado da emissora e, para piorar, levou um fatality do pior inimigo.

O fato: Lucas Di Grassi realmente não soube se expressar. Ficou de fora da prova por uma contusão extra-pista e, para não ficar por baixo, tratou de falar que preferiu se poupar para a prova da Fórmula E e tratou mal a mídia especializada nacional, que reportou exatamente da mesma forma que a mídia internacional – essa ele nem sequer atacou.

Aí já começou mal. Descartar a maior corrida de longa duração do mundo, integrante da tríplice coroa, para disputar uma corridinha de carros elétricos? Quer enganar quem, cara pálida? Mas até aí é um problema dele. Se ele quer criar desculpa, que crie, mas ao criticar os jornalistas brasileiros ele já criou um belo pênalti.

Aí veio o sábado, veio a largada, veio o post:

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Ao contrário de Hamilton Rodrigues e Rodrigo Mattar, Lucas é obrigado a ter um conhecimento técnico absurdo e acima da média sobre os carros que ele pilota. O funcionamento da rebimboca da parafuseta é uma obrigação do piloto e do engenheiro e não tem como virar e falar que a dupla não manja: a partir do momento que o WEC é um esporte de ponta, envolve dinheiro, tecnologia e pouquíssimas pessoas têm real acesso aos meandros técnicos, se falta alguma informação técnica por parte dos locutores é algo absolutamente normal, do jogo. E, dependendo do caso, nem vem à tona, pois, querendo ou não, você não sabe se o público que está vendo o Fox Sports 1 naquela hora, canal onde o futebol é o forte, entende o que é as 24 Horas de Le Mans. É preciso ser didático com os leigos, sem fazer quem entende de idiota. Coisas da comunicação. Mas a soberba não o permitiu ver assim.

Inegável é dizer que os dois se prepararam absurdamente para a transmissão – e nenhum deles em momento algum falou saber de tudo, cantou de galo. Quem conhece um pouquinho do Mattar sabe que na categoria de pesquisador doente ele só perde para o gaúcho Paulo Lava, do museu do automobilismo. Os dois levantam a bandeira não só do endurance, mas também do automobilismo regional e, principalmente, a história do automobilismo. E Hamilton Rodrigues é um dos principais narradores do Brasil com um currículo invejável de eventos. Ambos mereciam o mínimo de respeito.

Agora, ao invés de se disponibilizar, se oferecer ou complementar a narração, Lucas deu um tiro numa turma que já estava mordida com ele. Inteligente como é, deveria saber que um vírgula fora do local pode acabar com todo um argumento. E nessa ele deu um tiro no próprio pé.

É óbvio que perto dele, um cara de reconhecida inteligência e conhecimento técnico, Hamilton e Mattar não chegam perto e isso não é demérito para os dois, já que o acesso não é tão profundo quanto ele tem (começo apenas pelos limites continentais). Porém, ao falar que os dois não entendem do riscado, a água azedou e com razão. Afinal, não é a primeira vez que Di Grassi dá uma dessas com os jornalistas.

E, com razão, ele teve que engolir os dois ironizarem ao vivo (acima) suas palavras e o criticarem de forma dura. Nesse caso, Di Grassi se esqueceu que os jornalistas tem o poder do microfone e que eles podem, sim, criticar um piloto por suas atitudes. Coisa que muitos jornalistas não fazem pela necessária e infeliz politicagem do meio, mas isso é um assunto à parte.

Todo mundo sabe que piloto acha jornalista um bosta que não sabe o que fala. Agora todo piloto vai pensar duas vezes antes de criticar publicamente sem razão, como fez Di Grassi. Ou pelo menos tomar mais cuidado na hora de escolher as palavras.

Confesso que deu dó do amigo Cleber Bernuci, assessor de Di Grassi, tendo de apagar um enorme incêndio desnecessário às 10h da manhã de um sábado de feriadão no qual ele estava liberado para descansar – já que o piloto não correria.

Mas vamos voltar no tempo. Isso não é de hoje.

Monza, 2008. Campeonato da GP2. A disputa do título estava polarizada entre Giorgio Pantano e Bruno Senna. Com o resultado da corrida 1, vencida por Di Grassi, Pântano levou o título após ser o décimo, jogando com o regulamento embaixo do braço. Era o primeiro título italiano em um campeonato de relevância desde Vitantonio Liuzzi em 2004. Até maior, pois em 2004 a F3000, que no ano seguinte viraria a GP2, estava mais que minguada.

Enfim, a manchete do site Grande Prêmio, no qual atuava, não podia ser outra: Pantano campeão. A vitória de Di Grassi ficou restrita à linha fina – nada mais natural. Foi citada, foi comentada, mas infelizmente houve um título no mesmo dia. O que o piloto fez: mandou um e-mail dos mais mal-educados para a redação, batendo boca com o jornalista Francisco Luz, hoje um dos grandes nomes do Zero Hora.

Isso foi um assunto absorvido internamente, com todos dando razão ao “Chico”, como o chamamos. Mas agora vale levar luz a isso para mostrar que o problema não é pontual e já vem de muito antes. Pena que os emails se perderam no limbo cibernético, mas eles vivem bem lúcidos na cabeça da equipe da época.

Ou seja, a reincidência só complica a situação. Como um cara inteligente como poucos pode agir dessa forma? Naquela época ele era cogitado como futura estrela da F1, tinha sido por anos test-driver da Renault e cantava de galo bonito – e nessa época ele já criava e desenvolvia o ódio por Nelsinho Piquet, algo que dura até hoje e nesse episódio de Le Mans ganhou um capítulo a mais graças à sua falta de tato.

Nada boba, a equipe de Nelsinho (assessor, fotógrafo, cinegrafista) ficou sabendo do que aconteceu e contou para ele, que tratou de afundar ainda mais Di Grassi: pegou o telefone no intervalo entre seus turnos, ligou para a Fox Sports e passou um tempão ao vivo, encerrando sua participação com um elogio à equipe do canal.

Um tapa na cara duplo.

A sorte de Di Grassi é que Hamilton, Mattar e a equipe de motor da Fox Sports são íntegros. Por deterem os direitos das duas competições que Di Grassi disputa, eles poderiam muito bem ignorar, boicotar e fazer o diabo a quatro com ele, mas não farão por terem respeito. Ao piloto, ao campeonato, à emissora e, principalmente, ao público e ao esporte, que não merecem ser prejudicados por conta de um piloto em um dia infeliz.

No fim, Di Grassi não correu, perdeu uma boa oportunidade de ficar quieto, queimou ainda mais sua imagem e ainda viu seu principal rival enumerar vitórias particulares: Nelsinho levou vantagem em cima do acontecido, foi o melhor piloto brasileiro na prova, em segundo e saiu ainda mais fortalecido nessa guerra particular, que já atingiu níveis bem baixos e pelo jeito não terá um fim tão cedo.

Ou seja, só derrotas para um evento só.

A lição que fica? Não adianta ter talento e dinheiro se não tiver um media training decente. Ele pode até ficar quieto publicamente após esse vacilo, mas deveria sim conversar com a equipe da Fox por uma questão de respeito.

Com isso, Di Grassi virou um exemplo aos pilotos em formação. Afinal, o que aconteceu é um belo case do que não se deve fazer.