O mundo dá voltas

Há 24 anos sua carreira quase acabou, mas não por sua culpa.

Pareceu ser inteiramente sua, mas não foi sua. Na verdade, fizeram de tudo para fazer que fosse tua a culpa. Nem o maior de todos os tempos conseguiu ajudar (na real nem sabemos se ele queria ajudar).

Você foi maltratado pra cacete. E olha que até patrocinador levou pra lá. E isso minou a relação logo de cara, a ponto de você não querer deixar os EUA, seu único porto seguro na ocasião, para ficar na jaula com os leões durante a temporada de 1993. Um suicídio consciente, uma vez que a vaca já tinha ido pro brejo antes mesmo de nascer e a pressão depois de três GPs sem uma volta completada sequer já era estratosférica.

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Isso que você só tentou fazer parte do mundo deles por mérito e talento próprios. Por ter batido gente grande e graúda (dois campeões mundiais entre eles) a 400 por hora. Mesmo assim, te ferraram legal. E até hoje fica a impressão de que você foi vítima de um ataque orquestrado ao automobilismo norte-americano após Nigel Mansell ter preferido correr nos ovais após ser campeão.

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Enquanto isso sua família e a Indy deram exemplo de como tratar um forasteiro – tanto que Mansell ficou duas temporadas por lá (e seu maior erro foi, curiosamente, ter voltado à F1). Mas, no seu caso, deu no que deu. Quando estava em um bom nível, somando um pódio em Monza, você se cansou e foi embora com razão, provando isso ao ganhar em seu retorno a onde nunca devia ter saído e na única corrida internacional da Indy na época, em Surfers Paradise. Depois daquilo sua carreira nunca mais subiu tão alto. Mas você foi um gênio e se reinventou como ninguém de sua família fez.

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E você se tornou novamente o melhor. Desta vez, de forma incontestável. Se nunca ganhou a Indy 500 na pista, já é multicampeão como dono de equipe e se bobear até ganhou até rejeição a lactose de tanto beber leite. Ja tomou com Dario Franchitti (duas vezes), Dan Wheldon, Ryan Hunter-Reay e, agora, com Takuma Sato. E quase tomou com seu filho, em 2006, num episódio que lembrou o seu em 1991, só que de forma bem mais dramática.

Hoje ele ocupa tranquilamente um lugar entre Roger Penske, Chip Ganassi, Paul Newman e Carl Haas como um dos melhores gerenciadores de equipes da historia da Indy.

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E quando você estava acima da carne seca, aqueles caras que te ferraram lá atrás vieram socados de merda até o pescoço pedir penico e ajuda.

Se eles estivessem bem jamais fariam isso – e ainda fingiriam que nem lembrariam de vocês. Mas eles precisavam disso pra limpar a barra e usaram o cara que eles enlamearam para isso. Tudo bem que isso tem o dedo de Zak Brown, americano e fã fervoroso da Indy, mas eles não se dobrariam se a coisa não estivesse tão preta como está.

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E ele foi lá e fez, querendo ou não, de cabeça erguidíssima. Tratou de aceitar os demônios que ferraram sua carreira dentro da própria casa e vestiu eles com o seu uniforme. E botou até teu filho para ajudar e deixar o carro no jeito para eles, como a foto acima mostra.

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O mundo dá voltas e Michael Andretti descobriu isso em 2017. E ele não só ajudou a McLaren, que o humilhou em 1993, como deu um tapa com luva de pelica não só neles como na F1 ao vencer com outro piloto excluído de lá.

Hoje ele pode dizer de boca cheia que não deve nada a absolutamente ninguém. Nem a Alonso, nem a Ron Dennis e até a Senna. Afinal, pode não ter sido da maneira que ele queria, mas ele se tornou o melhor de todos.

Uma lição. Parabéns, Michael.