Quem aqui é blaço dulo, mesmo?

Desde quando Satoru Nakajima despontou como companheiro de equipe de Ayrton Senna em 1987, ser japonês era motivo de piada no Brasil. Se é da mesma maneira no mundo eu não sei, mas aqui nas terras sem lei para políticos isso passou a ficar enraizado no subsconsciente brasileiro.

Culpa de Galvão? Não sei, pois o brasileiro é trollador por natureza, mas também vamos fazer um mea culpa aqui que a japonesada, completamente inexperiente em conduzir carros de ponta em campeonatos gringos (só sabiam produzir), também colaborava.

Nakajima 1989

Mas não carecia tanto exagero como a turma do amendoim brasileira (que é grande) alastrava.

Nakajima, com um carro que só Senna conseguia pilotar (e nem sempre arrancar resultados) virou piada logo de cara. Mesmo tendo feito a melhor volta no temporal do GP da Austrália, preferem lembrar das duas batidas dele na primeira volta nas ruas dos EUA, por exemplo.

É tudo uma questão de prioridade. Por aqui, é a de zoar os outros.

Só que Nakajima foi meio que um Emerson deles, abrindo as portas à forçeps com a Honda obrigando os times a contratar um japonês, e durou bem, entre 87 a 91. Somou bons 16 pontos e teve como melhor resultado dois quartos lugares.

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Aguri Suzuki não chegou a ser muito zoado por aqui por ter nome de moto e ter somado um terceiro lugar ao lado de Nelson Piquet e Roberto Moreno no Japão, em 1990. Mas o cara que veio depois dele também amargou piadinhas.

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Ukyo Katayama. Que virou Ukyo Katagrama nas transmissões. Esse sofreu até calar a boca de todo mundo em 1994 com a Tyrrell – depois desse ano as brincadeiras até pararam.

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E como em todo grupo tem o sabotador, entre os japoneses ele atende por Taki Inoue. Aquele do atropelamento na Hungria. Inoue foi um daqueles que levou a sério o lema: se não pode contra eles, una-se a eles. E, se auto trollando, vem alçando uma fama maior que a da época de corridas. Vai entender.

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E a lista foi seguindo… Tivemos Shinji Nakano, que não foi mal; Tora Takagi, que andou com os tânques da Tyrrell e da Arrows; teve também Kazuki Nakajima, que herdou todas as piadinhas do pai e Kamui Kobayashi, o último grande herói japonês da F1. Entre eles dois erros da Honda, Yuji Ide e Sakon Yamamoto.

Também tivemos o grande Satoshi Motoyama, o maior piloto de monopostos que o Japão já teve , multicampeão da então F-Nippon (que revelou nomes como Eddie Irvine e Ralf Schumacher), mas que só teve uma chance na F1 nos treinos de sexta com a Jordan em 2003 se não me falhe a memoria.

E, na esteira da F1, na GP2, temos o Nobuharu Matsushita, que está na média dos outros pilotos do grid, nada mais e nada menos.

E temos Takuma.

 

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Takuma foi aquele cara que veio ao Brasil anonimamente no início de 2002 para andar com um carro de F3 em Interlagos e ver para que lado vira – simulador na época era videogame e olha lá.

Aquele que também nessa visita aproveitou para visitar o túmulo de Ayrton Senna, mostrando em poucos dias um respeito pelos brasileiros que pouquíssimas vezes foi recíproco.

Na F1, teve uma carreira de respeito. Pegou a era Schumacher em um carro mediano, mas conseguiu subir ao pódio algumas vezes, dando até esperança de vitória em 2004 quando a Honda teve um carro digno de bons resultados.

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Renasceu em 2007 com a Super Aguri e o dedo de Aguri Suzuki num carro velho fazendo Fernando Alonso ficar sentado no cantinho em Montreal. E quem diria que ele faria o mesmo anos depois.

Sem esperança na F1, tratou de se mandar para os EUA, onde milita por anos com lampejos de grandes pilotagens, como a vitória em Long Beach em 2013, e momentos que já entraram para a história, como a manobra kamikase na última relargada da Indy 500 de 2012 que coroou Dario Franchitti.

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Nas corridas do Brasil, mesmo sem o glamour da F1, Sato era um dos mais requisitados, solícitos e queridos tanto de público quanto de imprensa. Ficava nítido que o japonês não se deixou abater com o lado negro de ser repelido da F1 e estava bem feliz com essa sua nova escolha.

E, se alguém tinha uma dúvida dessa escolha, ela acabou de ser dissipada no último domingo. Prova do preconceito contra o japinha é que ninguém (exceto Téo José) dava bola para Sato até a corrida começar.

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E Sato foi gigante. Aprendeu com as lições de 2012 e fez uma corrida de paciência, mas competitiva. Sempre andando no bolo da frente, soube acelerar quando devia e deixou, curiosamente, Fernando Alonso no chinelo. Não só Alonso, toda uma comunidade do automobilismo.

Sato não é um piloto cuzão e rancoroso longe disso, mas tenho certeza que muita gente adoraria que ele postasse em suas redes sociais a seguinte frase: “Quem é blaço dulo agora, seus alombados?”