Há dez anos, Gualter Salles nascia de novo: “Foi a mão de Deus”

O próximo domingo dia 30 marca o aniversário de dez anos do maior acidente que já vi por essas bandas.  Publico sobre ele hoje pois sou ansioso.

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Podemos dizer que Gualter Salles é um cara de sorte. Ele participou de dois dos três acidentes mais graves da história da Stock Car (falo da divisão principal) e sobreviveu para contar a história. Um deles foi o de 2003 que vitimou um fotógrafo, mas o principal deles, que é o primeiro colocado, aconteceu há exatos dez anos em Buenos Aires.

Era a segunda visita da Stock na Argentina e ela correria como evento suporte do TC2000. Na época havia uma overdose de aneis externos no campeonato nacional e foi escolhido um trioval pouco usado para a realização da prova internacional.

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A corrida foi fantástica desde os treinos. Afinal, eram 40 carros no grid e gente graúda como Ingo Hoffmann, Chico Serra, Raul Boesel, Cacá Bueno, Luciano Burti, Tarso Marques, Christian Fittipaldi, Carlos Alves e Giuliano Losacco, além dos jovens Átila Abreu, Allam Khodair e Valdeno Brito, entre muitos outros. Um deles era Gualter, em sua quinta temporada.

Sem contar o Mano Rola, que ficava atrás de todo mundo.

A própria classificação viu 32 carros no mesmo segundo, um indício de uma prova espetacular, assim como acontecia nos outros circuitos com as mesmas característica. Felipe Maluhy era o pole, com Rodrigo Sperafico ao seu lado na primeira fila, seguidos por Losacco e Valdeno. Ingo, que merece destaque, saía em oitavo, com Gualter em 25º.

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Restando 20 minutos para a largada, a chuva que caía desde a noite anterior parou, surpreendendo a todos. Mesmo assim, a largada foi com pista seca. E o caos começou a rolar, com a galera se engalfinhando. Átila começou a brincadeira rodando e tirando Ruben Fontes.

A precariedade do chassi ultrapassado da Stock Car contribuiu para alguns abandonos como o do vice-líder do campeonato Losacco, que viu Cacá esticar mais na ponta.

“A pista estava segura, apesar da água empoçada, mas o problema foi a lama que foi se acumulando no pára-brisa. O limpador apenas espalhava a sujeira. Acabei entrando um pouco tarde na curva, passei sobe a zebra e quando vi já estava na grama. O carro saiu quicando e quebrou a suspensão.”

No entanto, a pista foi secando, os pilotos colocando pneus de pista seca e o “destruction derby” comia solto. Era teco de carro pra todo lado – nada muito diferente de hoje em dia.

Os mais experientes se sobressaíam como Ingo, que foi passando um por um até tomar a ponta de Maluhy no terço final e abriu uma distância segura de dois segundos – para um tri-oval era uma eternidade.

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Burti, que havia feito uma demonstração com um carro da Williams antes da largada, não teve tempo de trocar de macacão e correu com o da equipe de F1, o que parece ter lhe dado sorte pois ele estava em terceiro.

O bicho comia solto até a volta 32. Faltando dois minutos para o fim do tempo de prova, o carro #99 de Gualter ficou desgovernado após levar um toque de Guto Negrão em alta velocidade. Uma vez na grama molhada, o carioca virou passageiro a mais de 200 km/h.

Ele torcia para a inércia parar o carro, mas no meio do caminho havia um morrinho. Havia um morrinho no meio do caminho. De repente, ele sentiu o carro sair do chão. O resto você pode ver abaixo.

Foram mais de quatro giros no ar e, de repente, cadê Gualtinho? Ele sumiu da TV, será que pulverizou, pois o carro não sobrou nada!

Para deixar a coisa ainda mais dramática, ele caiu numa via de acesso ao interior do autódromo que cortava a pista por meio de um túnel. Com isso, a direção de prova, antes mesmo de o acidente aparecer na TV, decretou bandeira vermelha e fim da prova.

Todo mundo pensava no pior. Alguns deixavam o carro e saíram correndo para o local, como Paulo Salustiano. A sequência pode ser vista abaixo.

Fotógrafo presente no local, Fábio Oliveira descreveu a sensação.

“Achei que ele tinha morrido. Não só eu como todos os outros fotógrafos. A gente chegou lá e desacreditou quando viu ele inteiro e se mexia. Mas dava para ouvir os gritos de dor, também.”

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Seo Gualter, pai do piloto, também era um que não acreditava que o filho teria escapado dessa. Com mais calma, ele conta como se sentiu na hora.

“Quando faltavam cerca de 200 metros para chegar ao local, eu parei e não tive coragem de avançar. Qualquer pessoa que visse os destroços de perto jamais admitiria que alguém pudesse sair vivo do desastre. Graças a Deus meu filho praticamente nada sofreu”.

Depois de ser socorrido, Gualtinho foi levado ao Hospital Guernes na capital argentina com apenas uma suspeita de fratura no braço, recebendo alta dias depois, mas não podendo competir na prova seguinte, marcada para sua casa no Rio de Janeiro.

A gente conseguiu imagens nunca vistas por aqui do acidente visto de outro ângulo, pela arquibancada, confira:

Passado o caos do acidente, a busca por um culpado quase sacrificou Guto Negrão, que tratou de se defender dizendo que foi uma consequência do engarrafamento que estava rolando naquela turma. Eram 17 carros separados por apenas dez segundos.

“A impressão que tenho é que o pessoal que estava à frente freou muito antes do normal. Em qualquer outra pista, as conseqüências não seriam aquelas que vimos. Em Buenos Aires, ele passou sobre um barranco que serviu como plataforma de decolagem.”

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No fim, nada aconteceu. Por sorte, todos escaparam inteiros e os pilotos correriam mais duas temporadas com esse chassi que mais parecia uma cadeira elétrica e custaria duas vidas anos depois, quando o carro passou a ser usado pela divisão de acesso: Rafael Sperafico e Gustavo Sondermann.

A Gualter, restou agradecer por estar vivo. Hoje ele é um dos homens fortes da equipe Vogel na Stock Car e passa despercebido no paddock mesmo medindo mais de 1m80, tamanha sua discrição.

“Foi a mão de Deus que me salvou. É algo que, mesmo quando eu estiver com 70 anos de idade, nunca vou esquecer. No acidente, em si, eu não penso; apenas às vezes, quando alguém toca no assunto. É apenas mais uma corrida, mas logicamente quando voltar lá, as lembranças vão voltar a cabeça, mas eu vou tentar não pensar nisso.”

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Porém, o retorno não aconteceu: Gualtinho se aposentou após três corridas em 2007 pela Scuderia 111 e não voltou para Buenos Aires, que realizaria sua última aparição na Stock Car até hoje.

PS: novamente, farei essa reclamação – COMO É DIFÍCIL encontrar coisas, materiais, vídeos e fotos da Stock Car recente, principalmente pré-2007. Pessoal, abram os arquivos! Como conquistaremos mais fãs se eles não conseguem ter acesso à história?

A maioria das infos e fotos resgatei do meu primeiro blog, o clássico Laje de Imprensa, cujo conteúdo faço questão de preservar. Pena que a resolução baixa das fotos não colabora, mas, pelo menos, temos esse material. As fotos, aliás, são de Sergio Sanderson (Gualter Salles que abre a materia), Fábio Oliveira (acidente), Bruno Terena (Williams), Miguel Costa Jr. (Guto Negrão) e João Vasconcelos (Gualter Salles que fecha a materia).