Quando o automobilismo teve sua primeira chance em horário nobre no Brasil

Em Haja Coração, Malvino Salvador faz um piloto de ralis durão e garanhão.

Em Passione, Marcello Antony fez Gerson Gouveia, um piloto de Stock Car safadinho frequentador do X Vídeos.

Porém, a primeira novela onde o protagonista era um piloto aconteceu há quase 40 anos. 37, para ser mais exato.

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O ano era 1969. A Rede Globo não era uma potência em novelas e os folhetins ainda estavam engatinhando por aqui. As novelas sempre foram especialidade do rádio e aos poucos ela vinha se moldando ao tubo.

A rival da Globo, a TV Tupi, havia naquele período encontrado o fio da meada com a mítica novela Beto Rockfeller, protagonizada pelo Luis Gustavo, conhecido do publico mais novo como o Vavá de “Sai de Baixo”. A modernização e adaptação da novela ao contemporâneo, deixando de lado os folhetins de época, se mostrou o maior acerto do gênero e o fez dar o primeiro passo para ser unanimidade nacional – hoje em dia mais até que o futebol.

Para criar sua versão da “novela verdade”, a Globo fez sua autora oficial, Janete Clair, abandonar as fantasias e focar na realidade. Ela, por sua vez, pegou uma radionovela “Vende-se um Véu de Noiva” e a adaptou, se tornando “Véu de Noiva”.

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Aí eles pensaram: qual a função do protagonista, que seria Cláudio Marzo? A novidade do momento se chamava Emerson Fittipaldi, que estava destruíndo tudo na Europa.

Eureka!

Então diretor da Globo, Boni conta em sua biografia que se mostrou inicialmente receoso com a escolha das corridas de automobilismo de Fórmula 1 como um dos temas da telenovela, já que Emerson ainda era uma promessa, não uma realidade.

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No entanto, ele foi convencido por Daniel Filho de que o tema traria a modernidade almejada pela Globo à produção – e esse escolha ultimamente funcionou como um engenhoso plano de promoção das corridas, conforme o piloto brasileiro Emerson Fittipaldi se mostrava bem-sucedido na competição.

Espertinhos. Mal sabiam eles que marcariam um belo gol.

Para contribuir com a promoção das corridas, que até então não eram populares no Brasil, a produção gravou cenas em autódromos e, posteriormente, incluiu uma participação especial do piloto Jackie Stewart. E também mostrou descaradamente imagens de corridas de F1 gravadas na Inglaterra.

Hoje em dia isso daria um processo danado.

Em sua biografia, Boni conta assim a história:

“De qualquer forma, Beto Rockfeller fez história e representou o início de modernização da telenovela brasileira.

Assim que o Beto começou, o Daniel Filho me trouxe a proposta de fazer uma novela moderna escrita por Janete Clair, que havia sido recusada pela Glória Magadan várias vezes […]. Na sinopse trazida por ele, o personagem principal era um piloto de carros de corrida. Protestei.

– Daniel, não dá. Pela primeira vez a Magadan estava certa. Automobilismo é coisa para homem e o grande público da novela são as mulheres.

O Daniel, com seu jeitinho manso e maneiro, argumentou:

– Não se assuste. O automobilismo é só pano de funto. É uma novela romântica… muito romântica.

Desconfiado, levei a sinopse para casa e li durante a noite. Era ótima. O automobilismo era abordado discretamente e, como o Emerson Fittipaldi iniciava sua carreira na Europa, tínhamos um bom gancho promocional.

[…] O Daniel teve que fazer várias tomadas com o piloto José Carlos Pace dublando o Cláudio Marzo e depois editou com cenas de Silverstone, onde apareciam Emerson Fittipaldi e Jackie Stewart.”

Essa novela também tem um caráter histórico por ter sido a primeira novela de Regina Duarte na TV Globo. Contratada a peso de ouro da Tupi, a escalação da atriz foi mais um esforço da emissora para conquistar o público de São Paulo, ao trazer para seus quadros uma atriz paulista de grande sucesso. E também tinha a Betty Faria, uma puta gata na época.

Ou seja: automobilismo também é cultura!