O dia em que Berger e Alesi emularam os Trapalhões em plena Monza diante dos Tifosi

Gerhard Berger poderia ter se chamado Andrea de Cesaris no ano de 1993. A quantidade de acidentes espetaculares em que ele se envolveu naquele ano foi enorme, a ponto de todas serem dignas de prêmio.

No Brasil, foram dois. Um deles nos treinos, estampando sua Ferrari na saída do Sol (acima). Depois disso, o local passou a contar com o chamado “Muro do Berger”.

A segunda foi mais espetacular ainda, com Michael Andretti, da McLaren, no S do Senna (acima), fazendo o norte-americano dar piruetas no ar a lá Simone Biles.

Foram quatro no total, com as duas últimas sendo um caso à parte. A que vamos descrever hoje aconteceu em Monza, nos treinos do sábado, a que Berger descreve em sua biografia como “pesadelo”.

Hoje a gente pode chamar de pastelão, graças a Deus.

Berger era um vencedor em Monza, tendo conquistado uma vitória épica dias após a morte de Enzo Ferrari em 1988 após Ayrton Senna bater em Jean-Louis Schlesser e adiar o título até Monza (veja acima).

Seu parceiro de Ferrari, Jean Alesi, tinha acabado de registrar o terceiro tempo e estava feliz da vida, acenando como se tivesse marcado a pole e andando a passo de tartaruga.

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Berger fechou a volta e seguiu pisando. Alesi estava nas curvas di Lesmo naquele momento. O encontro dos dois foi dar em plena reta oposta, antes da variante Ascari, uma guinada rápida à esquerda que faz o estômago do piloto seguir reto.

Berger veio chutado, a 300 por hora. Alesi o viu no retrovisor e puxou para o lado de dentro da pista, deixando o traçado ideal para o companheiro de equipe.

Só que Berger também foi para o lado de dentro.

Tadinho do fotógrafo.

Veja como Berger descreveu em sua biografia chamada “A Reta de Chegada”, traduzida em português pelo grande Jorge Meditsch para a Ed. Globo. Livro fora de catálogo.

Pesadelo número um (não era para ser meu ano, como ficava cada vez mais claro): classificação em Monza.

É a décima-terceira corrida do Campeonato Mundial e, finalmente, nosso motor com quatro válvulas por cilíndro está pronto. Estamos a meio caminho na jornada; aqui e ali, a Ferrari tinha chegado a menos de quatro segundos dos ponteiros da temporada, ou seja, Prost (Williams-Renault) e Senna (McLaren-Ford), às vezes Hill (no outro Williams) e Schumacher (Benetton Ford).

Finalmente, um impulso em nossa motivação.

A classificação acabou, as bandeiras indicam, eu continuo na pista. Eu me mantive andando no limite depois da linha de chegada para marcar de novo os dois primeiros tempos parciais, T1 e T2, apenas para informação interna da equipe e porque, perto do encerramento do treino, eu tinha experimentado alguma coisa nova. Hoje há três registros de tempos intermediários, T1, T2 e T3, o que ajuda a tirar conclusões de certos detalhes.

Não há limitações de velocidade para a volta de desaceleração, desde que se entre nos boxes. Eu Chego rapidamente até ele para poder contorná-lo, como em uma corrida. Mas Jean não olha para os retrovisores até o último instante (ele estava abanando para os fãs – afiinal, estávamos em Monza), leva um susto e tenta sair do que seria meu traçado ideal, mas era muito tarde. Ele vai para a direita, bem no caminho que estou fazendo, vejo sua roda traseira e penso: “Tudo menos isso!”.

Está gravado no subconsciente de todos os pilotos: “Tudo menos passar por cima da roda traseira! Se eu atingir sua roda traseira a 330 km/h, vou decolar!”. O que pode acontecer depois sabemos pelo acidente que matou Gilles Villeneuve. Em meu caso, teria voado mais ou menos até Sidney.

Em uma situação dessas, não há tempo para pensar no que se quer fazer, mas apenas no que, com toda a certeza, não se quer fazer. O resto vem automativamente sem nenhuma interferência do piloto.

“Não bata naquela roda!” Viro o carro para o lado, escapo de sua roda traseira por poucos centímetros e isso é tudo o que é possível corrigir. Aí bato no muro (a 328 km/h, como mostrou a telemetria), felizmente em um ângulo bem agudo, o carro é jogado para trás e para o ar e começa a rodar. O carro gira como a hélice de um helicóptero pela pista, tão rápido que eu quase chego a perder a consciência. Vez por outra, ele ricocheteia no chão, como uma pedra atirada em um lago. Não sei onde estou nem para onde vou e o carro não perde velocidade, até acabar voando por cima da área de escape ao longo da reta.

É verdade que se consegue pensar em uma situação dessas?

De alguma forma, deve ser. Primeiro pensamento: “Evite o volante”. Depois: “Uau, mesmo assim você não vai escapar dessa, vai bater a qualquer instante. Opa, de lado, meu pescoço quebrou”.

O impacto foi brutal, provavelmente a mais de 200km/h, apesar de amortecido por uma barreira de pneus de cinco camadas. Primeiro experimentei mexer a cabeça, com muito cuidado. Sim. De novo. Sim, ela se mexia, mas tudo o que eu via eram estrelas. Eu quase não enxergava nada com um dos olhos. E aí veio gente e me tirou fora dos restos do carro. Eu sentei, tentando fazer alguns movimentos, tudo parecia estar funcionando, exceto meu olho. A ambulância chegou em um instante, me levou até o hospital do circuito e, depois de dez minutos, meu olho também já trabalhava normalmente. Uma hora depois, os resultados dos exames médicos confirmavam: está tudo bem.

Apesar de eu estar duro e exausto, não havia por que não correr no dia seguinte. No entanto, acabei saindo da prova mais cedo, devido a um problema no carro.

Quanto a Alesi, não fazia muito sentido, no fim, levantar uma questão sobre o acontecido. Exatamente por causa dos acidentes terríveis ocorridos no passado, a Fórmula 1 criou uma regra segundo a qual o piloto não deve jamais mudar de faixa a menos que esteja diretamente envolvido em uma disputa, quando ele opta entre um traçado defensivo ou agressivo e sua linha ideal. No caso, tínhamos uma diferença de velocidade de cerca de 200 km/h – simplesmente não se pode sair do traçado em uma situação dessas, quão boas sejas as intenções.

[…] Pode ser que o subconsciente abrigue este pensamento otimista: “Se alguma coisa acontecer, eu poderei sobreviver a ela”. Mas posso me lembrar de uma situação em particular em que assumi um risco maior por causa disso. E nesse caso, nada teria me ajudado se eu passasse por cima da roda de Alesi.

Como pesadelo pouco é bobagem, Berger fechou aquele ano de 1993 dando um susto em todos, principalmente em Derek Warwick no Estoril, ao atravessar a pista na frente de todo mundo na corrida seguinte. Mas essa é outra história que contaremos em um outro dia…

Ah, e sobre Monza, Berger viria a bater no ano seguinte na variante Della Roggia, só que sozinho e durante o warm up, como você pode ver no vídeo acima.

Neste caso, ele fez de tudo para correr pois ele tinha colocado sua filhinha para ser grid girl dele na prova. No fim, deu tudo certo!