Sacrilégio: o único GP da Itália que não foi em Monza

O ano de 1980 foi extremamente bizarro no que diz respeito ao esporte. Duas coisas praticamente impensadas aconteceram naquela temporada: os Estados Unidos boicotaram as Olimpíadas de Moscou e o GP da Itália NÃO aconteceu em Monza.

Isso mesmo que você leu. Pela única vez na história da Fórmula 1 a corrida italiana não aconteceu no lendário circuito desde sua inauguração, em 1922 – até as corridas da geração anterior à F1, chamada de Grand Prix, brilharam lá desde o dia 1 e só não correram nos períodos de guerra.

Hoje a gente fica impressionado, mas na época era algo que já havia sido planejado e foi até avaliado no ano anterior: depois do acidente que vitimou Ronnie Peterson, a F1 obrigou Monza a passar por reformas de segurança. Mesmo com a pista tendo feito isso, um acordo com Ímola já havia sido assinado.

largada

Ímola foi uma pista inaugurada de forma semi-permanente em 1954 e não tinha uma única chicane – era pé embaixo o tempo todo, exceto em curvas como Tosa, Piratella, Acqua Minerali e Rivazza. O traçado clássico foi definido em 1973 e durou até o ano de 1994, quando a pista virou uma vilã como Zolder – mas essa é outra história.

Enquanto Monza corria com mais reformas para se adequar às exigências da FIA, Imola recebia sua segunda corrida não-oficial em 1979 como teste para o que aconteceria no ano seguinte. Ela já havia recebido evento parecido em 1963, quando Jim Clark foi o grande vencedor.

Alex Dias

Naquela edição de 1979, chamada de Dino Ferrari Grand Prix, a vitória foi de Niki Lauda, com a Brabham. A disputa teve 40 voltas, contou com 16 pilotos e um único brasileiro: Alex Dias Ribeiro, com um Fittipaldi, um dos cinco que abandonaram.

_Imola-1980-09-14

Tudo certo, tudo aprovado, a FIA jogou a batata quente para Monza e confirmou o GP da Itália para Ímola. O que gerou reclamações dos fãs. Se Ímola se encaixasse perfeitamente, um grande problema surgiria, pois já era fato que a F1 sem Monza não daria muito certo. Mas, naquele ano de 1980, não havia o que fazer e nem para onde fugir.

No quesito competição, tudo corria bem: 28 carros se inscreveram. Nos treinos, o estreante Manfred Winkelhock batia com seu Arrows no também novato Nigel Mansell, da Lotus, e nenhum dos dois participou da classificação, ficando fora da corrida ao lado dos Ensigns de Jan Lammers e Geoff Lees.

Na frente, a Renault dominava a primeira fila com René Arnoux à frente de Jean-Pierre Jabouille. Atrás deles sairiam Carlos Reutemann (Williams), Bruno Giacomelli (Alfa Romeo), Nelson Piquet (Brabham) e Alan Jones (Williams).

Villeneuve2

Eleita na ocasião como favorita na temporada, a Ligier via Didier Pironi em 13º e Jacques Laffite apenas em 20º, enquanto a Ferrari, que procurava piloto para 1981 (Jody Scheckter anunciara em Ímola que se aposentaria ao fim da temporada), estreava um novo carro turbo com Villeneuve (foto acima). Só que era tão pouco confiável que o time preferiu correr com os modelos antigos. Scheckter sairia só em 16, dividindo a oitava fila com Emerson Fittipaldi.

Prost

Fechando o grid, em 24º, um tal de Alain Prost, estreante, com o pior carro da McLaren até o ano passado.

O domingão chegou e os pilotos teriam pela frente 60 voltas na pista de 5 km. Na largada, Reutemann pulou de terceiro para a ponta, mas isso durou pouco, pois sua embreagem deu xabú na hora e ele caiu para trás. Com isso, Arnoux e Jabouille voltaram à frente, com Piquet em terceiro, despachando Giacomelli. Villeneuve também pularia para oitavo em uma boa partida.

Na volta 3, Jabouille e Piquet passaram Arnoux, com o brasileiro tomando a ponta de Jabouille logo em seguida – e para não perder mais. Só que a emoção da corrida não acabou por aí.

Na sexta volta, Villeneuve sofreu um acidente espetacular, de frente, na curva que antecede a Tosa e que hoje leva seu nome. O canadense bateu e ricocheteou de volta para a pista, com Giacomelli abandonando por ter passado nos destroços. A pista já tinha garantido seu lugar na história só pela batida.

villeneuve

Depois disso, a prova deu uma esfriada. Arnoux perdia rendimento e era ultrapassado por um embalado Alan Jones, que já havia deixado Hector Rebaque, da Brabham, para trás. Jones, que fecharia o ano como campeão, caçou e passou a outra Renault, de Jaboille, na volta 29.

Após uma longa corrida de recuperação, Reutemann conseguiu escalar até terceiro lugar – graças, em parte, à tradicional fragilidade da Renault, que despencou com Arnoux para décimo e que tirou Jabouille da prova com um problema de câmbio.

Com isso, Elio de Angelis levava a Lotus para quarto e, junto com o quinto colocado Keke Rosberg, então na Fittipaldi, se estabeleciam como as novas jovens sensações do grid, ao lado de Pironi, o sexto com a Ligier.

O tal do Prost, que partiu em último, foi o piloto que mais evoluíu durante a corrida, terminando num honroso sétimo lugar, a uma volta do vencedor, Piquet, que assumia a ponta do campeonato com um ponto de vantagem, restando então duas provas para o fim.

No fim da corrida, o resultado foi o seguinte: um sucesso absoluto. Com isso, a FIA teve de quebrar a cabeça e arrumar um jeito para Ímola ficar no calendário e a solução foi pegar emprestado o nome da republiqueta de San Marino como desculpa para uma segunda corrida na Itália.

Piquet

E assim Ímola seguiu até 1994 desta forma, tendo uma sobrevida de dez anos até deixar o calendário em 2004. Para 2017, existe um rumor de que o episódio de 1980 possa se repetir, com Ímola no lugar de Monza no calendário, mas isso temos de esperar para ver.

E Monza, no ano seguinte, voltava para nunca mais sair.. Por enquanto!

Resultado da prova:

1. Nelson Piquet (Brabham-Ford), 60 voltas em 1:38:07.52
2. Alan Jones (Williams-Ford), a 28.93
3. Carlos Reutemann (Williams-Ford), a 1:03.67
4. Elio de Angelis (Lotus-Ford), a 1 volta
5. Keke Rosberg (Fittipaldi-Ford), a 1 volta
6. Didier Pironi (Ligier-Ford), a 1 volta
7. Alain Prost (McLaren-Ford), a 1 volta
8. Jody Scheckter (Ferrari), a 1 volta
9. Jacques Laffite (Ligier-Ford), a 1 volta
10. René Arnoux (Renault), a 2 voltas
-. Emerson Fittipaldi (Fittipaldi-Ford), 17 voltas/acidente