O dia que Zanardi testou os limites de Eau Rouge e quase foi pro beleléu pela primeira vez

Alessandro Zanardi é um cara de sorte. Aí você vai me dizer: “como ele tem sorte, visto que ele perdeu as duas pernas?”.

Eu vou responder: além de todo o aspecto de superação, ele quase morreu alguns anos atrás.

Ele gostava de brincar com a sorte.

Formula One Testing

Aconteceu numa sexta-feira, dia 27 de agosto de 1993, no período entre 9 e 11h30 da manhã, na mesma Spa-Francorchamps que veremos pela televisão pelos próximos três dias de manhã.

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Esta seria o 18º fim de semana do italiano como piloto de F1, o primeiro em Spa e o nono representando a Lotus, após três corridas pela Jordan em 1991 e uma de três em 1992 pela Minardi substituíndo o ex-rival Christian Fittipaldi – nas outras duas ele ficara de fora do grid. Ele também realizara testes com a Benetton naquele ano de 92.

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Zanardi não tinha uma fama boa na F1 naquela época. Mesmo tendo sido vice-campeão da F3000 em 1991 com uma ótima atuação contra Fittipaldi (inclusive a vaga dele no ano seguinte foi ocupada por Rubens Barrichello), o italiano pecava pelo excesso de arrojo natural de um novato. Tendo estreado na Jordan duas corridas após Michael Schumacher, ele não conseguiu deixar a mesma impressão.

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Sua primeira temporada pela Lotus vinha sendo bastante infeliz: apenas uma corrida nos pontos, no Brasil, depois sete abandonos – três por falha dele, duas vezes por causa de suspensão quebrada, um por conta de câmbio e outra por causa do motor Ford que quebrou. Seus outros resultados foram um oitavo lugar em Donington, sétimo em Mônaco e 11º no Canadá.

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Aí veio Spa.

Foram três voltas claras de reconhecimento, com a melhor delas em 2min05s188, mais de 15 segundos pior que o tempo de Alain Prost na mesma sessão com a Williams. E, quando abriu a quarta, Zanardi decidiu fazer a Eau Rouge pela primeira vez com o pé cravado.

Cravado até demais.

Foi tudo tão rápido que ficou difícil interpretar de cara. De repente, um carro chega com tudo e explode ao dar no guard rail que servia para separar a pista do morro de onde desembocava uma saída de estrada que servia de pista de apoio, girando e ricocheteando até parar do outro lado da pista.

Se não houvesse o barranco a Lotus teria atravessado o guard rail e Zanardi seria decapitado – isso levando em conta o estado que ficou a barreira, com um buraco no centro. God Save the Hill, e não estamos falando de Damon.

Quando o carro parou, Zanardi estava com o braço para o lado de fora, como um boxeador que tivesse acabado de tomar uma surra. Mas o fato de ele se mexer já deixou muita gente suspirando aliviada – tamanha a magnitude da pancada.

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Este acidente é o que mais se assemelha ao de Robert Kubica no Canadá em 2007. Ou seria o contrário?

Dentro do carro, Zanardi estava completamente atordoado e com a boca sangrando, pois alguns dentes dele e quase a língua foram para o espaço na hora que ele estampou a cabeça no volante na pancada inicial. Não havia HANS. Se houvesse, esse impacto seria evitado.

Quando todos pensavam que o susto havia passado, aí veio outra situação de arrepiar os cabelos escondidos: sem a mínima ideia do acidente, Ayrton Senna vinha esmerilhando seu McLaren-Ford e só se deu conta em cima da hora, freando com tudo.

Isso fez com que ele perdesse o controle do carro, rodasse e fosse em direção a onde estava a Lotus de Zanardi e os fiscais de pista, que saíram correndo. Porém, em uma balisa perfeita, Senna conseguiu parar o carro de ré a 50 cm de distância da Lotus.

Vai me falar que esse cara não nasceu de novo? De acordo com reportagens, ele bateu a 234 km/h. Sid Watkins, médico oficial da FIA, contou, inclusive, que o movimento da cabeça de Zanardi contra o volante e o painel teoricamente o salvou: como o carro rodou cinco vezes em altíssima velocidade sobre o próprio eixo, essa rotação extrema poderia ter fraturado o tronco cerebral. Zanardi, inclusive, teve sua altura aumentada em uma polegada após o acidente.

Ele, curiosamente, havia sofrido um forte acidente em Silverstone em treinos onde o volante estava afundado junto do painel. Não havia sido, então, a primeira vez que ele havia beijado o velocímetro.

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Abaixo tem uma entrevista com ele veiculada na Eurosport na época, mas um tradutor alemão começou a dublar a entrevista e só entendi algumas partes.

“Tenho dor em todos os lugares e nem sei de onde vem, pois estou todo machucado. Não me lembro de tudo. Lembro que estava andando na pista devagar para me aclimatizar. Passei por algo, provavelmente, e o carro foi para o muro. Depois me lembro dos médicos se preparando para me tirar do carro. Eu tentei me mexer mas não consegui, como se o corpo estivesse desconectado da cabeça, e isso foi uma sensação ruim.”

Zanardi até insistiu em correr na prova segunda em Monza, mas a Lotus, com o embasamento dos médicos, ele ficou de fora do resto da temporada e só voltou na Espanha, no ano seguinte. Aí já era tarde demais e o piloto havia perdido o bonde da história na F1, tendo que renascer nos EUA nos anos seguintes.

Mas daí pra frente é outra história… E que história, hein?