Hockenheim, 1994: salve-se quem puder

O ano de 1994 já tinha sido doloroso o suficiente para a F1. Já haviam morrido Ayrton Senna e Roland Ratzenberger; Rubens Barrichello, Jean Alesi, Pedro Lamy, Karl Wendlinger, Andrea Montermini e J.J. Lehto escaparam da morte por um triz mas não dos machucados.

A F1 passava por uma crise profunda e uma insegurança idem. Modificações imediatas e posteriores eram divulgadas toda hora, tanto no carro quanto nas pistas – a de Barcelona ganhou uma chicane de pneus tão perigosa quanto precária, mas, pelo menos, na cabeça deles, a velocidade seria menor ali.

As polêmicas também não deixavam de acontecer. No GP da Inglaterra, o anterior ao de Hockenheim, Michael Schumacher foi desclassificado após ter passado o pole Damon Hill na volta de apresentação. O alemão e sua equipe, a Benetton, eram as principais suspeitas de burlar as regras.

A corrida tedesca só serviu para mostrar que o mundo dá voltas e que a trapaça pode prejudicar bastante. Até matar.

Antes do fim de semana começar, havia a dúvida se Schumacher correria ou não, já que o apelo da Benetton sobre o GP da Inglaterra foi rejeitado, além de um anúncio de que a FIA teria encontrado irregularidades no software da Benetton em Imola – também negado pelo time.

SONY DSC

A entidade por sua vez, implementava uma redução da asa traseira e as malfadadas pranchas de madeira embaixo do carro, com um centímetro de espessura. Não serviam para nada a não ser deixar o carro mais instável e entregar algum competidor que estivesse correndo com o carro baixo demais (quanto mais baixo, melhor, no caso da F1).

Tudo isso causou consequências no carro de Schumacher, apenas o quarto no grid, ao lado de Hill, seu arquirival da Williams. Na frente, uma primeira fila totalmente da Ferrari, com Gerhard Berger à frente de Alesi. Era a primeira pole do time desde o GP de Portugal de 1990 – quase quatro anos.

picture

Vale destacar a quinta posição no grid da Tyrrell de Ukyo Katayama e a sétima de seu parceiro Mark Blundell. Foi a última vez que o time inglês largaria tão bem em sua história. Entre eles saia o então cabação David Coulthard com a condenada Williams número 2. Mas o grande destaque deste início de prova foi o oitavo no grid.

Mika Hakkinen.

O finlandês já estava com fama de batedor. Ele inclusive fez o oitavo tempo com o carro reserva de seu companheiro, Martin Brundle, após ter destruído o seu na tomada de tempos. E os primeiros 300 metros do GP da Alemanha quase acabaram com sua carreira.

Quando a luz verde se acendeu, Berger manteve a ponta sobre Alesi e Katayama voava em terceiro. Enquanto mais atrás a dupla dinâmica formada por Andrea de Cesaris, da Sauber, e Alessandro Zanardi, da Lotus, batiam e tiravam também as Minardi de Pierluigi Martini e Michele Alboreto da prova, Hakkinen se preparava para uma ultrapassagem dupla sobre Coulthard e Blundell, por dentro, em um espaço mínimo.

Espremido, Coulthard não teve o que fazer e seu carro fez o de Hakkinen rodar na frente de todo mundo, enquanto Blundell foi acertado pela Jordan de Eddie Irvine, rodou e levou uma pancada da Sauber de Heinz-Harald Frentzen, ficando enroscado entre os dois na brita e travando o caminho de Rubens Barrichello, que parou por ali com seu outro Jordan.

Vendido, Johnny Herbert fez o que pôde para não acertar ninguém com sua Lotus e conseguiu, mas Martin Brundle não e o acertou com sua McLaren. Tudo isso só nos 300 metros que levam da linha de largada à primeira curva.

020432-6cbc8b58-a685-11e3-94c1-d923b8b77352

Saldo? 10 carros fora. Este número subiria para 11 metros depois: a Ferrari de Alesi abriu o bico mais uma vez. E Hakkinen levaria um ganchinho que o faria ser substituído pelo digníssimo Philippe Alliot, então com 40 anos, no GPs da Hungria. Imagine a animação de Ron Dennis, que até o ano anterior tinha um Senna em seu carro.

Ufa, agora vamos para a corrida em si. O resultado disso tudo era Berger líder, seguido de Katayama, Schumacher, Hill e Coulthard, que seguia com o bico quebrado. Schumacher pulou para segundo ainda na primeira volta, com Katayama abandonando no sexto giro após um acelerador travado que o fez rodar duas vezes.

tumblr_myrr8eL59i1rod8iso1_1280

Antes de abandonar, Katayama tocaria rodas com Hill e o inglês, com problemas de suspensão, despencava. Nessa brincadeira, quem evoluía era a Ligier com seus dois estreantes, Olivier Panis (campeão de 1993 da F3000) e Eric Bernard, que já eram terceiro e quarto colocados após sete voltas.

Foi quando a Benetton brilhou novamente para o lado errado.

Há muito tempo se desconfiava que a equipe italiana teria retirado alguns filtros da mangueira de combustível para abastecer mais rápido. Isso teria justificado como Schumacher teria superado Ayrton Senna no pit stop durante o GP do Brasil, por exemplo. E justificou o incidente plasticamente mais assustador visto na F1 – mais até que os acidentes de Imola.

Sem filtros, a mangueira engasgou e, com isso, se desprendeu do bucal e deu um banho de gasolina no piloto, no carro e nos mecânicos. Conte até três e BOOM.

De repente os boxes da Benetton estavam inflamados de chamas com mais de três metros de altura. Por muita, muita sorte, a F1 estava com aquela mania de segurança que diminuía o número de pessoas no pitlane, diminuía a velocidade na área dos boxes e colocavam bombeiros em todos os cantos. Isso fez o carro de Verstappen ter seu fogo apagado em menos de dez segundos.

Não deu nem tempo direito de o holandês deixar o carro. Outros cinco mecânicos também se queimaram junto com o piloto no incidente e o resto escapou ileso. Vendo as imagens é difícil de acreditar. E, no vídeo acima, há uma entrevista com Jos. Pena que não entendo holandês, mas abaixo segue a versão TV Globo, com um discurso inflamado (desculpem o trocadilho) de Galvão Bueno – a versão “eu já sabia” do caos.

E nessa a máscara da Benetton caiu, e feio. A partir de então eles só tomariam porrada e não perderiam o título daquele ano por um pileque dos diretores de prova que não prestaram atenção no acidente com Hill na prova final na Austrália – afinal, pelo mesmo motivo em 1997 o alemão perdeu todos os pontos. Vai entender…

Voltando para a corrida, Schumacher viu que não era o dia dele quando o motor quebrou, restando somente outros dez carros na prova, até que a dupla da Simtek, formada por David Brabham e Jean-Marc Gounon, que apenas figurava, também saía fora. Agora restavam oito.

Lá na frente, sem problema algum (nem parecia que disputava a mesma corrida), Berger quebrava um jejum de quatro anos sem vitória da Ferrari (a última tinha sido no GP da Espanha de 1990 com Prost) e de quase dois sem triunfar (desde o GP da Austrália de 1992), sendo sua primeira conquista com a Ferrari desde o GP de Portugal de 1989.

Alemanha 94 4

Panis e Bernard, que largaram em 12º e 14º, completaram um pódio incomum com dois franceses e dois carros da Ligier – incomum em 1994, claro. Não precisamos dizer que foi o primeiro pódio dos dois.

barrichello1994aida4

A dupla da Footwork, com Christian Fittipaldi e Gianni Morbidelli, aparecia logo em seguida na quarta e quinta posições, sendo esta a última corrida que o brasileiro pontuava na F1.

Outros três carros terminariam aquela corrida: Erik Comas botava a Larrousse pela última vez na história nos pontos, em sexto, com seu parceiro Olivier Beretta em sétimo.

O último entre os que terminaram? Hill. Quem sabe, não fosse o problema na suspensão, ele poderia ter conquistado nesta prova pontos suficientes para não levar aquela pancada de Schumacher em Adelaide, mas isso é assunto para a nossa imaginação.