Hockenheim, 1982: Didier Pironi e o retrato do inferno

A temporada de 1982 foi tudo menos típica. E o GP da Alemanha não podia ter sido diferente. A prova, que a F1 torcia para ser sem acontecimentos, não só tirou mais um piloto no grid como gerou outro acontecimento tragicômico e, no meio daquilo tudo, uma pequena notícia bacana que serviu como motivo para a caminhada seguir naquele ano difícil.

O campeonato já havia começado completamente conturbado com a ameaça de boicote dos pilotos ao GP da África do Sul que abria a temporada por conta da recém-criada superlicença. Eles a consideravam injusta, alegando que ficariam atrelados aos times de forma indevida. No fim a corrida rolou com todos, os rebeldes foram multados, ameaçados e o GP da Argentina, que seria o segundo do ano, cancelado por causa dessa politicagem.

No GP do Brasil, punições, desclassificações com pesos e medidas diferentes, o que geraram mais protestos e quase o adiamento do GP seguinte, em San Marino – ideia rejeitada pelos organizadores, o que provocou um boicote de meio grid, com apenas 14 carros alinhando em Ímola. Isso não impediu que a corrida fosse polêmica e desencadeasse uma séries de acontecimentos negativos.

A corrida em Ímola (acima) viu uma ordem de equipe da Ferrari pró-Gilles Villeneuve ser desrespeitada pelo companheiro Didier Pironi nas voltas finais. Ambos duelaram ferozmente e o francês levou a prova. Villeneuve fechou a cara e nunca mais ele foi visto sorrindo novamente em uma corrida.

Esta seria a sua última.

Ao tentar superar Pironi na classificação do GP seguinte, na Bélgica, ele bateu em Jochen Mass, capotou, foi lançado do carro em movimento e faleceu por conta de um pescoço fraturado na manhã do sábado. A corrida aconteceu normalmente, como se nada tivesse acontecido, só que sem a Ferrari.

A próxima prova, em Mônaco, foi a salvação do momento – uma corrida emocionante, diversos líderes e indefinição até a bandeirada. A vitória de Riccardo Patrese dava a indicação de dias melhores para a F1. Mas era só um alarme falso, um buraco na núvem negra onde se podia ver o céu azul, mas ele logo se fechou.

Após um GP dos EUA calmo – também pudera, a pista era mais travada que a Avenida Brasil de qualquer cidade na hora do rush -, no Canadá a tragédia voltou a se abater tendo Pironi novamente como coadjuvante. Seu carro não largou e a Osella do italiano Riccardo Paletti estampou seu carro e, enquanto Pironi tentava ajudar, um incêndio irrompeu com o italiano preso nas ferragens. Ele viria a falecer horas depois.

Mas que ano de m…

Veio o GP da Holanda e Pironi venceu – mas o vencedor foi René Arnoux que escapou com muita sorte de um sério acidente quando seu acelerador travou.

Eis que surge Hockenheim.

A pista havia sido modificada recentemente com a adição de duas chicanes – que seriam aprimoradas nos anos seguintes e serviam para brecar as altíssimas velocidades. Com 30 carros no grid, era uma alteração necessária.

Na sexta-feira todo mundo esperava um fim de semana calmo. As coisas pareciam estar se endireitando. Um GP sem problemas e Pironi isolado na liderança do campeonato e caminhava para ser o primeiro francês a ser campeão mundial – apenas uma tragédia tiraria o título das mãos dele.

E ela veio.

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A classificação do sábado viu as núvens negras de volta. Eram de chuva. Despencou o céu em Hockenheim. E como a pista ficava em um setor florestal – a conhecida Floresta Negra -, a água não se dissipava e o spray de água gerado pelos largos pneus traseiros dos F1 bloqueavam a visão.

Na pista seca, Pironi havia sido o mais veloz e a confiança era o que mais exalava em seu rostinho angelical. E o francês entrou na pista com sua Ferrari. Na aproximação para a seção do estádio, em altíssima velocidade, não dava para enxergar o Renault de Alain Prost vindo em velocidade baixa. Foi quando o inferno baixou pela terceira vez na F1.

O jornalista Nigel Roebuck testemunhou toda a cena e contou em sua biografia.

“Chovia muito e, mesmo contra todas as coisas que distraíam minha visão, pude ver o fim da reta que leva ao Estádio. Havia um carro – uma Ferrari – no ar, a cerca de seis metros do chão, com o bico apontado para cima. Quando caiu, foi primeiro com a parte traseira, depois começou a dar cambalhotas até parar na beira da pista.”

Todos se questionavam. Ele havia aniquilado o tempo da pole no dia anterior, então pra quê se aventurar. Muitos diziam que ele pirava, outros falavam que ele estava sentindo a morte se aproximando. Mas todos admitiam que ele era “sacudo” – nossa tradução literal para as “big balls” que Jacques Laffite usava para descrever Pironi.

O impacto foi violento. Pironi estampou a traseira do Renault de Prost, que não esquece a cena até hoje – depois desse acidente ele passou a pensar mil vezes antes de largar uma prova com pista molhada. E seu relato é o mais assustador.

“De repente senti algo muito forte batendo na traseira a mais de 280 km/h. Era o Didier. O carro dele voou muito alto, coisa de oito metros. Eu rezava para conseguir parar, pois estava sem freios. O carro dele caiu de traseira e foi cortado em dois. Foi uma atrocidade absurda.”

O trauma que ficou na memória do cara que acabou sendo o primeiro francês campeão mundial foi devastador.

“Toda vez que piloto na pista molhada eu olho o retrovisor e vejo a Ferrari de Didier voando para cima de mim.”

Derek Daly também fez uma descrição sucinta do que rolava:

“Tudo o que você podia ver eram enormes bolas de spray.”

Naquela época os carros de F1 não eram feitos em fibra de carbono. Aliás, aquilo era novidade na época, com a McLaren e a Williams tomando a dianteira no pioneirismo. Sendo assim, as pernas de Pironi foram esmagadas no primeiro impacto da frente do carro com o chão.

O cockpit ficou completamente irreconhecível.

Além de Prost, Nelson Piquet foi o primeiro a parar no local para ajudar. Outros pilotos também paravam. Muitos vomitaram ao ver o estado em que se encontrava Pironi. Quando o médico Sid Watkins chegou ao local, Pironi agonizava e o primeiro pensamento era o de amputação das duas pernas.

Só que o que foi amputado de vez foi sua carreira. A chance de ser campeão mundial acabava ali. Agora, Pironi torcia para poder conseguir dar passos com as pernas novamente. O título que valia agora era o de continuar vivo.

E, no desespero do momento, berrar era a principal forma que ele tinha de lutar pela vida naquele momento. Watkins relembra as frases que o perfuravam como uma faca a cada berro.

“Me tirem daqui! Me tirem daqui! Não deixe eles arrancarem minhas pernas!”

Em seu livro, Watkins descreve a conversa que teve.

“Ele desmaiava e acordava várias vezes. As pernas dele estavam quebradas, esmagadas em pedaços, assim como seu tornozelo, quase pulverizado, e o braço quebrado. Eu dizia a ele que daria minha palavra e ninguém tocaria nas pernas dele enquanto tentava sedar ele, que estava histérico. Dei um jeito, mas não parecia estar bom, só que garanti a sobrevivência das pernas. No fim, levamos 30 minutos agonizantes para tirá-lo do carro.”

Mesmo com tudo isso, o fim de semana teve prosseguimento (alguma semelhança com Canadá/82, Ímola/94 e Japão/14?). Ao contrário do que aconteceu na Bélgica, a Ferrari manteve um carro na pista, o de Patrick Tambay, enquanto a vaga de pole, de Pironi, ficou vazia. Dá pra ver ela todinha aí em cima.

A prova pode ser resumida em dois momentos: a briga entre Piquet e o retardatário Eliseo Salazar, da ATS, que gerou o momento mais engraçado da temporada (no meio de tanta tragédia, a cena ficou parecendo um quadro do Porta dos Fundos).

Este momento levou a outro, o da primeira vitória de Patrick Tambay, com o carro que era de Villeneuve. A Ferrari, que iniciava o ano como favorita, seguia para a parte final do campeonato sem seus dois pilotos titulares e com um desconhecido no volante. Até Mario Andretti foi chamado nas provas seguintes.

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Pironi, que terminou 1982 como vice-campeão a cinco pontos de Keke Rosberg, passou por um longo tratamento que levou anos. Existem rumores que ele teria feito testes secretos com a AGS em Paul Ricard e com a Ligier em Dijon no ano de 1986, quando suas pernas voltaram a ter força. Ele só não podia revelar isso, pois ele havia recebido uma bolada do seguro e, caso voltasse, teria de devolver tudo.

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O francês foi até ventilado como possível parceiro de Prost na McLaren em 1987, mas o companheiro havia vetado. E ele até teria se acertado com a Larousse para voltar em 1988, mas a gravidez de gêmeos de sua esposa mudou os planos. Enquanto isso, ele decidiu correr de powerboat, a chamada F1 dos barcos.

E aí outra tragédia interrompeu abruptamente seus planos.

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Pironi corria ao lado de Jean-Claude Guenard, o ex-mecânico da Ligier, e do jornalista Bernard Giroux. No dia da prova, Guenard disse ter sentido um calafrio.

Não era do vento, não era do frio.

Na corrida em si, logo na segunda volta, o Colibri, barco do trio, brigava pela liderança. Quis o destino que um navio-tanque estivesse na região e soltasse óleo na água. A mais de 260 por hora, o barco de Pironi fugiu de controle, bateu numa onda e decolou, caindo em alta velocidade no mar – e esse impacto era o similar ao de bater em um muro de concreto.

Para o azar de Pironi e seus parceiros, o barco caiu de cabeça para baixo. A sorte que ele teve em Hockenheim não apareceu novamente e os três ocupantes perderam a vida. A tragédia foi tão impactante que o presidente francês Jacques Chirac soltou um comunicado na ocasião.

“Didier morreu de afogamento após uma séria lesão na cabeça. Era um herói francês e me junto ao mundo no luto.”

Pironi, que lutava há anos para ser pai, faleceu sem poder conhecer os filhos, que nasceram meses depois. Seus nomes? Didier e Gilles.

Abaixo, na foto, Didier e Gilles com Jacques, filho de Villeneuve. Para mostrar que mesmo as histórias mais difíceis acabam tendo um final feliz.

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