A F1 deveria dar mais segundas chances. Perez e Grosjean são dois cases de sucesso

Se existe uma coisa que a Fórmula 1 era (e continua sendo na maioria dos casos) com seus pilotos é ser implacável. No mundo dos esportes, é um dos campeonatos mais cruéis, pois exige milhões dos competidores nos anos de preparação, mais alguns milhões para poder competir lá e nenhum retorno (geralmente muito prejuízo) caso o atleta não tenha impressionado mesmo sem uma chance decente.

A gente vê isso com Felipe Nasr, por exemplo. Uma carreira gloriosa nas divisões de base totalmente aniquilada por uma oportunidade infeliz na F1 com uma equipe desestruturada, apesar de tradicional, e financeiramente combalida. Se não for com dinheiro, Nasr não sobreviverá na F1. Andar ou largar em último em algumas vezes já são o suficiente para sua imagem ir para o saco e suas oportunidades acabarem.

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O passado foi craque em mostrar isso. Em alguns casos mais recentes, vimos Jean-Eric Vergne, Jaime Alguersuari, Sebastien Buemi e Lucas di Grassi como nomes de destaque que não conseguiram progredir na F1 e saíram pela porta dos fundos. No caso dos três primeiros houve o benefício de serem preparados pela Red Bull, mas esse benefício custou muito caro. Vergne e Buemi ainda trabalham como pilotos de testes, simulador e de apresentação. Já Lucas acabou na mesma situação de Nasr, tentando se reerguer com a Pirelli mas se encontrando no WEC e na Fórmula E.

Ou Adrian Sutil e Nico Hulkenberg, talentos que não conseguiram subir e fadados ao sumiço. Sutil já foi, Nico vai logo mais.

No caso dos pilotos brasileiros, exemplos não faltam: a geração dos anos 90/2000 é um belo exemplo Ricardo Zonta, Enrique Bernoldi, Antonio Pizzonia e Nelsinho Piquet (independente de Cingapura) são grandes exemplos de nomes que fizeram história na base mas na divisão principal foram aniquilados. E a primeira impressão foi definitiva neste caso: a degola de Pizzonia da Jaguar, o azar de Zonta na BAR de Villeneuve, a falência da Arrows de Bernoldi e a manipulação de Nelsinho na Renault acabaram com as chances de uma carreira bem-sucedida: a mancha já não saía mais e o estigma ficou grudado neles – e injustamente desmerecidos, como é o caso de Bernoldi, por exemplo.

André Jung, meu comparsa sobre assuntos automobilísticos e musicais também ressaltou o nome de Cristiano da Matta. Perfeita lembrança.

Sim, a parte política contou muito no caso desses cinco e eles não conseguiram driblar isso com as chances que tiveram.

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Chatices à parte de alguns torcedores que gostam de admirar a grama dos vizinhos, os quatro sempre foram vistos como campeões em potencial antes de estrearem na elite.

Porém, de uns anos para cá, estamos vendo aos poucos essa norma ser contrariada e quatro nomes se destacam nisso: Sergio Perez, Romain Grosjean, Kevin Magnussen e Daniil Kvyat. Os quatro tiveram chances em grandes equipes, foram aniquilados, humilhados mas conseguiram uma segunda chance e estão conseguindo se superar.

O caso de Perez é simbólico: mandou bem na Sauber, foi para a McLaren em sua pior fase, se deu muito mal, teve a carreira quase aniquilada mas conseguiu se reconstruir na Force India a ponto de ser cotado para a Ferrari em 2017. A mesma coisa valeu para Romain Grosjean: considerado um piloto problema nos tempos de Renault/Lotus que renasceu nos últimos anos e também é cotado para assumir uma vaga nos times grandes.

Já Kvyat e Magnussen ainda estão no começo de suas segundas chances, mas possuem a oportunidade de redenção, o que é coisa rara. Ainda mais no caso de Kvyat, o único piloto da escola Red Bull a não ser anulado de vez. E, nas últimas corridas, mesmo exagerando no limite, vem impressionando ao mostrar tanta velocidade quanto Sainz.

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Magnussen, que estreou na fogueira da McLaren, se deu mal quando Fernando Alonso chegou e agora está se reconstruíndo tijolo por tijolo na Renault. Dos quatro é o único a ainda não ter entregue uma performance impactante por conta da péssima qualidade do carro, mas está vencendo Jolyon Palmer por 6 a 2 na disputa interna sem cometer erros, o que pode lhe render uma sobrevida.

E não dá para comparar os quatro com um Esteban Gutierrez, por exemplo, que só teve uma oportunidade nova na Haas por conta de seus investimentos (na forma de patrocínio) na Ferrari.

Nos anos 80 e início dos 90 isso podia acontecer com mais frequência por conta do cenário da época (mais acessível, com muitas equipes e mais chances), mas casos como os de Perez e Grosjean, que ganharam uma segunda chance e conseguiram decolar, são raros até naquelas condições. E também um indicativo de que, assim como em várias esferas da vida, a experiência vale mais que a juventude.

E, certamente, no fim do ano, esse tópico deve entrar como um dos grandes acontecimentos da temporada 2016. Afinal, não deixa de ser algo incomum e surpreendente.