Por quê?

ALERTA DE TEXTÃO. Com muito ÃO.

[Não quero cornetar nem procurar culpados nem nada. Só quero que você pense comigo. Duvido que apenas eu pense assim; afinal, não sou só eu que amo esse negócio…]

Todo santo ano o Brasil se lembra de Ayrton Senna. Todo santo ano o Brasil cobra Felipe Massa por resultados e novos nomes pra manter o País com um representante na F1 ininterrupto desde 1970. Todo santo ano a previsão para o automobilismo nacional é sombria.

Isso que eu disse acima todo mundo já sabe. Até uma porta sabe.

Se você fosse um gringo ou uma pessoa realmente desligada que não conhecesse nada do nosso esporte e do modus-operandi tupiniquim, acharia legal e louvável a preocupação do primeiro parágrafo. Eu realmente queria a gente que fosse assim, preocupado.

Ou melhor, que a gente fosse de atitude. Pois pra ficar preocupado e criticar todo mundo sabe o caminho. Mas pra botar o fiofó na reta…

Escrevo isso pois estou vendo um especial das Olimpíadas no Esporte Interativo. Uma matéria especial mostra a luta dos moradores da Vila Autódromo para não serem despejados do local, vizinho ao Parque Olímpico.

Aí eu pensei.

Vila Autódromo.

Mas que autódromo?

E aí eu fiquei com raiva.

Me veio uma enxurrada de coisas que preferi por no papel para ver se faziam sentido.

Desde 2012 se fala do Rio 2016. Falam que querem fomentar o esporte, aumentar o nível com a chegada dos Jogos Olímpicos. Tá bom.

Mas como vocês querem fomentar um esporte eliminando o outro?

Há quatro anos ninguém, nenhuma pessoa de destaque tanto do esporte quanto da grande mídia (e nessa hora preciso criticar meus colegas – muitos deles que fizeram carreira ou ganharam notoriedade cobrindo a onda do automobilismo) defendeu o autódromo. Deram as costas. Sumiram com um integrante essencial da nossa fase de ouro, tiraram a sobrevivência de famílias (explico mais abaixo) e minou a continuidade do esporte regional – região esta uma das mais importantes do País em todos os sentidos.

Sendo que, nos anos 90, fizeram duas reformas em anos seguidos para receber dois campeonatos internacionais. E anos depois destruíram metade. Para acabar com o resto há cinco.

É como se demolissem o Maracanã ou a Vila Belmiro para construir um octógono que receberá um único evento. Por muito menos (a remodelação interna do Mário Filho, mais especificamente) se fez um barulho notável.

E se esquecem que se essa porra de região é o que é hoje em dia, boa parte dele se deve ao finado autódromo – que existia antes mesmo dos políticos que canetaram essa decisão saírem das fraldas. Mais até que a Cidade do Rock. O autódromo hoje inexistente ajudou a povoar e qualificar a área que era um mato só até pouco tempo atrás.

Assim como a comunidade da ginástica olímpica, do taekwondo ou outras artes marciais e incontáveis outros esportes, o automobilismo não recebe atenção.

Só quando interessa.

Só quando está ganhando.

Só enquanto render dinheiro.

Maldita cultura da “Lei de Gerson” (procurem na internet o que significa, se você não souber).

O que todo mundo já sabe: esporte no Brasil é negócio de oportunidade financeira e de interesses pontuais. Em uma comparação grosseira, enquanto a vaca for gorda e der leite todo mundo quer. Quando ela emagrece, hora de ir pra outra vaca do momento.

Quando Senna morreu, tivemos o tênis na imagem do Guga; a ginástica artística com a Daiane dos Santos, o Diego Hyppólito e outros, retornando anos depois com o Arthur Zanetti; as  gerações de ouro do vôlei de 92 e dos anos 2000, a natação com Cesar Cielo e, o UFC e, agora, o surf, cujo momento acompanho de camarote. Todas as modalidades sugadas até os ossos, sem se importarem com a evolução e a geração de novos talentos para dar continuidade. Nem antes, nem durante, nem depois. Vale lembrar que um dos maiores esforços do automobilismo mundial em todos os tempos, a equipe Fittipaldi, sucumbiu pela cultura do imediatismo e pela imagem completamente denegrida pela ridicularização provocada por gente que gosta de cobrar mas não gosta de fazer (nada mudou de lá para cá…)

Temos a péssima mania de considerar apenas o produto pronto. Pouco importa como foi gerado esse produto, o que importa é que ele é incorporado ao sentimento de “sou brasileiro, com muito orgulho e com muito amor” na cara dura. Afinal, se é um sucesso ele é nosso. Se não é, nem quero saber dele, é um fracasso, uma humilhação para o Brasil, enfim.

Existem algumas diferenças evidentes e gritantes entre o automobilismo e os esportes olímpicos, com todo respeito a eles, que torna inadmissível o tratamento lixo que ele, assim como todos, recebe: o automobilismo tem história, tradição e teve extrema importância em um período negro do país como nenhum outro esporte. Em minha opinião, infinitamente mais impactante que o futebol. Por ter sido algo improvável.

Como todos já estão cansados de saber mas não refletem sobre isso: o automobilismo por muito tempo foi uma das maiores bandeiras do Brasil no mundo. Principalmente por ser um esporte tão caro em um país tão pobre, o que diferenciava ainda mais o esporte a motor do futebol – algo que pode ser praticado com jornal embalado na meia aqui na esquina.

Sim, é preciso ter dinheiro para poder escolher fazer uma carreira no automobilismo, sempre foi. Mas também é preciso ter dinheiro para investir em uma carreira de médico, por exemplo (pesquise quanto uma pessoa gasta para entrar na USP ou os custos de uma faculdade particular de medicina). E é possível, com muito esforço e um pouco de sorte, ser um profissional e ter destaque nessas áreas.

Outro motivo: é um esporte que serviu para suprir a carência das gerações dos anos 70 e 80. Carente de heróis, de esperança, enfim, de progresso. O Brasil se agarrou nos pilotos brasileiros como muletas e desabou em lágrimas, parou quando seu destaque pereceu. Além de serem garotos-propaganda e tirarem a imagem pejorativa de “terra de índios e macacos”, eles significavam para os surrados brasileiros exemplos da esperança de dias melhores.

Exagerei em falar que parou por causa de um piloto? Sim, parou, e foi algo que nunca vimos antes na história desse país. Uma experiência antropológica, profunda e involuntária para quem viveu aqueles dias. Podemos destacar vários problemas do automobilismo, ainda mais nesses períodos ecologicamente corretos e quadrados, mas devemos admitir que ele é e sempre será parte integrante da história desse país.

Além do detalhe visceral descrito acima e da lógica emoção que ele proporciona, o automobilismo também encanta por um ponto pouco falado: une ricos e pobres. Sim, é fato: os ricos se divertem mas fazem a máquina girar, dando empregos e sustentando famílias. Os dois lados entendem isso, se respeitam e se ajudam em nome dessa paixão. Eles sabem que, se uma parte não tiver a outra, o automobilismo não acontece.

O rico quer se divertir (ou levar a sério) e não meter a mão na massa. O pobre não tem dinheiro para comprar um carro de competição, mas sabe consertá-lo com perfeição. Acompanhando de perto o esporte desde 2001, nunca vi nenhum tipo de preconceito ou algum tipo de rusgas entre os dois lados. Algo incrível, pois ele une as duas extremidades sociais.

Cansei de ouvir que o automobilismo era o segundo esporte do Brasil. Mas não é tratado como tal. Nossa comunidade não trata como tal.

Se tratasse, jamais teríamos testemunhado episódios tão deprimentes. Cito alguns:

– Fim da pista do Rio
– Loteamento da pista de Curitiba
– Inatividade da pista de Brasília
– Sucateamento de outros autódromos
– Cancelamento da Fórmula Indy
– Início e fim do Racing Festival
– Início e fim do Renault Speed Show
– Polêmicas na Stock Car
– Desinteresse do público

Não é preciso muita pesquisa para se constatar que o período que compreende últimos 15 anos foi o pior para o nosso esporte.

Nosso esporte que teve uma década de 70 incrível, de não fazer feio para nenhum dos países chamados modernos e desenvolvidos.

Que teve uma década de 80 difícil no sentido financeiro, com pilotos e campeonatos se unindo para permanecer juntos.

[ Quer uma prova do esforço dessa galera: para sobreviver nos anos 80, a Stock Car fez um campeonato só em Interlagos e simulou disputas. Tudo isso para não sucumbir. Pergunte ao Ingo, ao Paulão ou ao Chico, só para citarmos três nomes.]

Que nunca esteve tão em evidência como nos anos 90, aproveitando com sucesso a onda trazida por Ayrton Senna.

Eu acho incrível que em períodos tão difíceis como esses acima, onde a nossa moeda era extremamente desvalorizada e os custos estrondosos, nós tivéssemos tantos campeonatos sadios e pilotos revelados.

Incrível como na adversidade tivemos sucesso e na bonanza nós estacionamos.

Nos últimos 15 anos, podemos dizer que menos da metade deles tivemos crises. E crises não tão críticas como nos 70 e 80.

É fácil dimensionar isso. Quem viveu aqueles períodos eu acredito que vai concordar comigo. Ou, para ser mais direto, veja a foto abaixo e admita: uma foto assim hoje em dia só juntando vários campeonatos. No registro abaixo, dos 500 km de Brasília de 1984, era só uma categoria..

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Aí eu pergunto… com uma economia bem mais segura em relação às décadas anteriores, uma globalização que permite competir com equipamentos iguais aos dos países ricos, uma geração incrível, muitos pilotos e com isso uma boa receita para as federações, uma tradição respeitável e até então autódromos de alto nível…

…Por que o automobilismo brasileiro está morrendo?

A minha resposta direta e sem detalhes é: porque a gente deixou.

(O argumento da crise mundial não cola. Quem quer faz acontecer. Só olhar para a Argentina e outros países da América do Sul onde alguns, com apenas uma pista ou locais improvisados, fazem a máquina girar.)

(Vale lembrar que o automobilismo só se profissionalizou na década de 2000 e se tornou um negócio realmente lucrativo e uma ferramenta de relacionamento empresarial por causa do esforço das décadas atrás. Mas em 15 anos o trabalho de 30 está indo por água abaixo).

(Antes tarde do que nunca, que a ABPA consiga unir nossa desunida comunidade – que, se fosse unida e forte, jamais teria perdido alguns de seus patrimônios mais sagrados, que são os autódromos).

PS 1: assim como o autódromo, o Parque Olímpico já nasceu sem ambições esportivas. Se não virar mais ainda uma especulação imobiliária, será uma região que rapidamente ficará sucateada. Em parte pelo desinteresse, em parte pela degradação inevitável provocada pela maresia.

PS 2: quer ver o automobilismo reunir apenas quem o ama? Tire a TV e o dinheiro dos patrocinadores de uma Stock Car, por exemplo. Seque a vaca. Aí teremos a real dimensão do nosso esporte, que, eu aposto, não constitui atualmente nem 1/3 do que era nos anos 70.

PS 3: sempre quis abordar esse tema sem ser piegas e redundante há anos, mas nunca escrevi pois sabia que o resultado seria um textão – e se você chegou até aqui me dê um salve, pois você realmente tem interesse no assunto. Espero ter conseguido organizar, dar sentido, razão e tornar compreensível esse turbilhão de ideias.

PS 4: Nos próximos dias vou pedir para meu mestre, Edgard Mello Filho, que viveu e acompanhou todas essas décadas, ver se o que eu escrevi faz sentido ou é uma bobagem completa. E pedirei a opinião dele.

PS 5: escrevi todo esse textão para concluir que teremos de reconstruir tudo que nossos antecessores construíram. Perto dos anos 70, estamos com a conta negativa. Aff…

Por quê, hein?