A classificação da F1 virou entretenimento e negócio. Será que estamos discutindo a coisa certa?

Nesta feriado de sexta-feira santa, com uma chuva do cacete na região onde moro em São Paulo, me restou pensar e ver imagens de corridas e treinos só para distrair e facilitar o pensamento. Algo que costumo fazer mesmo sem vontade com o objetivo de pescar histórias.

Aí decidi sem motivo específico ver uma sessão de treinos para o GP de Portugal de 1993 que pintou na minha lista de recomendações.

Bem pertinente, pensei. Pode render uma boa ideia. E fui ver.

Era no caso a segunda classificação, a do sábado. Até se não me engano 1994 a classificação consistia de duas sessões de 60 minutos onde cada piloto tinha o direito de dar 12 voltas em cada sessão, do jeito que quiser.

Acabei prestando atenção de verdade quando vi o acidente de Alain Prost. Eu não me lembrava. Era o fim de semana do tetra, ele rodou, deu na curva 3 do Estoril, que não tinha área de escape e lá o carro ficou. Outros tempos.

Esse treino teve um ótimo atrativo com contornos históricos: era a primeira vez que Ayrton Senna seria superado por um companheiro de equipe no grid em um bom tempo. Mika Hakkinen substituía Michael Andretti e ver ele nesta classificação é de encher os olhos. Dá pra ver que ele estava no limite.

Veja abaixo:

Mas foi só isso, também. A Williams normalmente colocava quase sempre mais de um segundo no carro rival mais próximo. E, como os melhores tempos da sexta estavam difíceis de serem superados, era um treino geralmente sem emoção na maior parte dos 60 minutos, esquentando mesmo nos cinco finais, como acontece hoje em dia nos TLs.

Isso quando não chovia na segunda sessão.

Mas isso não significava que ele era menos interessante. Tivemos treinos fantásticos e geralmente são esses os mais lembrados pelos fãs. Como não havia muito acesso à informação para seguir a sessão, pelo menos até 1994, você só saberia se alguém evoluiu SE a TV mostrasse. E às vezes isso demorava, viu. É aí que se destaca quem gosta mesmo de F1, pois esse enxerga o detalhe. E esse era o grande barato.

Você realmente tinha de confiar nos narradores e comentaristas, e até para eles o acesso às infos não era tão rico como era hoje. Por isso era meio difícil analisar idealmente, só com o grid completo e os tempos de cada sessão separados em mãos.

Era treta.

Isso sem contar o fato de ver uma Ferrari andando tres segundos mais lentos. Naquela época a diferença entre os carros na classificação era clara e evidente.

E você sabe porque?

Por que era um treino real, de competição pura, onde o objetivo era realmente premiar os melhores carros. E esse formato de 1993 era perfeito para isso, pois você via a real disparidade entre os carros e também quem fazia a diferença no braço. Por que você acha que as ídas de Ayrton Senna à pista no fim do treino para tirar o coelho da cartola são tão cultuadas?

É o formato ideal, falando bem a verdade.

Porém, agora vem o que eu realmente queria cornetar: esse desejo de Bernie Ecclestone de querer monetizar tudo e privilegiar o entretenimento fez com que chegássemos à situação atual.

Treinos não foram feitos para divertir, cá entre nós. Aliás, nos divertem no que realmente interessa ao fã de automobilismo: ver os pilotos buscarem o limite de seus equipamentos.

Não que eu não veja necessidade em transmitir os treinos pela televisão segmentada – quanto mais acesso melhor -, mas acho que estamos reclamando demais de algo que na verdade foi totalmente desvirtuado nas últimas duas décadas.

O que realmente interessa ao público leigo e mainstream na F1 é somente a corrida. Mais que isso só se rolar um acidente, uma polêmica ou algo pontual. Estamos dando murro em ponta de prego à toa.

Se você achou o treino chato, ou até dormiu durante ele, saiba que isso não é algo raro na F1. Nós é que estamos sendo mal-acostumados, pois esses últimos formatos privilegiam muito mais o espetáculo que a competição em si.

Claro que Ecclestone conseguiu um grande feito na proeza de transformar os treinos em algo emocionante, mas infelizmente tudo isso é mais por interesses financeiros (afinal ele amarra bem os contratos) e quanto mais tempo na televisão, mais retorno de mídia ele tem. E mais dinheiro ganha.

Enquanto a gente debate e até discute com mais violência como vi em alguns casos, as classificações vão ficando cada vez mais maquiadas e Bernie tá lá rindo de bolso cheio.

Com isso vemos treinos chatos (algo que na realidade é comum) e ficamos falando que a F1 vai mal. Na verdade ela quer ser fominha demais e nesses tempos de crise quanto mais ela ficar no canto dela e com o público dela, melhor. Pois são esses que a sustentam e ela pode os perder se ficar inventando demais.

Só pra encerrar: nenhuma outra modalidade esportiva no mundo exibe treinos ao vivo na televisão aberta e até mesmo nos canais segmentados a cabo, seja futebol, basquete e até automobilismo. Só a F1. Deixo isso para a vossa reflexão.

Falei muito, né? Mas acho que faz sentido essa conclusão.