Os azares de Gugelmin e Moreno resumidos em uma única história (com direito a primeira fila no Brasil)

Imagine você, já um profissional veterano, ter a chance de estrelar um evento em sua terra natal com condições de se dar muito bem. E que essa chance dificilmente viria novamente, pelo menos naquelas configurações tão favoráveis.

Era isso que Mauricio Gugelmin e Roberto Moreno sentiam na tarde de 11 de maio de 1997, no Rio de Janeiro, às vésperas da Hollywood Rio 400k da CART (ou Champ Car, ou “Fórmula Mundial, a fórmula da emoção”, como diria Téo José).

O calor de 32ºC que fez muita gente trocar as enormes arquibancadas do circuito de Jacarepaguá pela praia não incomodavam os dois, vestidos em pesados macacões anti-chama.

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O momento era de tensão. Nem parecia que Gugelmin havia ganhado dez mil dólares e quebrado um jejum de praticamente dez anos sem pole positions. A última vez foi pela F-3000 em 1987, na pista urbana de Birmingham, antes do período meio-doce-meio-amargo na F1.

Quis o destino que Jacarepaguá fosse o palco deste feito; foi lá que ele conquistara sua maior façanha na F1, um pódio na prova de 1989, a última da categoria por ali.

Já Moreno, como sempre, se viu naquela posição por vias tortas. Por conta do grave acidente sofrido por Christian Fittipaldi na etapa da Austrália daquele ano, Moreno teve a chance de disputar algumas provas com o carro mais forte de sua carreira.

Até mesmo o capacete dele mudou: para combinar com o carro vermelho da Budweiser, Moreno usou um casco vermelho liso, sem estampa. Um grande salto, levando em conta que ele iniciou o ano pela modestíssima Payton Coyne.

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Era possível tocar a tensão com os dedos antes da largada. Buscando mostrar tranquilidade, Gugelmin sorria e buscava demonstrar uma tranquilidade que sua face não mostrava.

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“O carro está bem equilibrado. No warmup andei menos para conservar os freios. Hoje é o dia mais quente do fim de semana, acho que os pneus vão resistir bem e estou otimista. Vamos buscar uma largada limpa, pois são 400 km, e com um carro bom desse jeito estaremos na final com certeza.”

Moreno, por sua vez, não estava nem aí para dar entrevistas. Ele não conseguia esconder a tensão e preferia ignorar o repórter oficial do SBT para priorizar um plug de ouvido que ele não achava. Ele tentou até fugir da entrevista entrando no carro, mas o repórter Antônio Petrin insistiu e conseguiu. Ao ser perguntado sobre o apoio da torcida, ficou nítido seu desconforto na resposta.

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“A gente tem que parar de pensar lá fora agora, pensar aqui dentro, se dedicar na pista e, se der certo, festejar com o povão.”

Moreno sabia que esta era a grande chance de sua carreira. Mais até que ter andado de Lotus, Ferrari ou Benetton na F1. A tensão era nítida também no rosto de sua esposa, Celia – o que era um prato cheio para a categoria, que adora mostrar as esposas.

Seja por sorte ou não, Gugelmin e Moreno não tiveram uma chance real de disputar a largada lado-a-lado. Uma patacoada parecida com a da US500 de 1996 impediu o início tradicional quando Parker Johnstone rodou com o carro da Green, levando consigo o vencedor do ano passado, André Ribeiro, seu companheiro Adrian Fernandez e o estreante Dario Franchitti. Tudo isso antes da largada.

Apesar de ter acontecido antes da bandeira verde, a prova não recomeçou do zero, com a relargada acontecendo em “fila semi-índiana”: não era obrigado o alinhamento, mas os pilotos chegaram a ensaiar até alguém avisar Gugelmin que não precisava disso e ele acelerou.

A próxima vez que Gugelmin e Moreno se encontrariam novamente na pista seria algo bem desagradável.

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O calvário de Moreno começou rápido, como se o azar estivesse apenas o estudando e esperando a hora certa de atacá-lo. Logo de cara, ele perdeu a segunda posição para Bobby Rahal (que posteriormente assumiria também a liderança).

Em seguida, durante uma disputa com Paul Tracy, sempre ele, Moreno acabou em tocando de forma caprichosa com a quina de sua roda traseira com a ponta da roda dianteira do canadense da Penske. Isso provocou uma rodada forte, mas quis o destino que ele conseguisse controlar o carro e seguir na prova, agora em 16º.

Gugelmin, por sua vez, estava em segundo, com um bom rendimento, quando foi aos boxes. Ao mesmo tempo, entraram Tracy, Gil de Ferran e Greg Moore. Após um péssimo trabalho da PacWest, o paranaense ficou encaixotado entre os rivais e caiu de segundo para quinto ao deixar os boxes.

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A corrida já havia entrado em sua metade quando as câmeras mudaram abruptamente para a curva 1. O carro de Gugelmin estava destruído. Mais à frente, outro carro parado. Era o de Moreno.

Os dois estavam batalhando por uma posição no “top 10” restando 55 voltas para o final. Ao contrário do que rolou com Tracy, Moreno tratou de se posicionar por dentro, enquanto Gugelmin estava bem rápido a seu lado. Na entrada da curva, a traseira de Gugelmin foi para o espaço e seu carro ficou atravessado na frente de Moreno.

Sem tempo hábil para desviar, Moreno atropelou a frente de Gugelmin e rodou. Ambos bateram na barreira de pneus que colocaram à frente do muro de concreto, mas Moreno não chegou a tocar forte, apenas entortou a asa.

Mas foi o suficiente para acabar com o sonho dos dois.

“Não sei o que aconteceu. Quando freei ele girou e o Roberto acabou batendo de susto.”

Enquanto Gugelmin se encaminhava para o centro médico, Moreno parava nos boxes para a troca da asa traseira. Sua esposa, Célia, chorava copiosamente, ciente de que o sonho do marido havia ido para o saco.

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Provavelmente Moreno deveria estar sentindo o mesmo, mas a sua sorte é que ele podia se esconder debaixo do capacete. Sem estar confirmado na próxima prova por conta da rápida recuperação de Fittipaldi, Moreno viu sua chance no Rio acabar algumas voltas depois, com o motor quebrado.

“O motor começou a falhar e resolvemos parar, pois estávamos duas voltas atrás. Estava passando o Maurício e algum maluco pegou ele do lado direito, ele rodou, bateu em mim e também rodei. Quebrou a asa e entortou um braço de suspensão. Mesmo com o carro empenado, consegui ajustar o carro e ele ficou rápido. Nenhuma das duas batidas foi culpa minha e o Carl Haas reconheceu isso, o que me deixou satisfeito. A gente se vê no próximo ano.”

Moreno faria mais algumas provas pela Newman-Haas e seguiu militando na Indy onde conseguiu de forma surpreendente brigar pelo título em 2000 e vencer duas provas (Cleveland em 2000 e Vancouver em 2001) com a Patrick. Gugelmin, por sua vez, venceria o GP de Vancouver daquele ano, mas nunca mais conseguiu apresentar um rendimento igual ao de 1997, quando fechou o ano em quarto, desaparecendo do cenário no início dos anos 2000 para nunca mais pisar em uma pista novamente.

E esta história, definitivamente, resume a falta de sorte dos dois.