Grandes Entrevistas Reeditadas: Christian Fittipaldi

Nota do editor: essa entrevista foi realizada no dia 5 de dezembro de 2007, durante as 500 Milhas de Kart daquele ano. Se não me engano, foi uma das primeiras da famosa série Grandes Entrevistas do site Grande Prêmio, que acredito existir até hoje (falo da série, claro).

Eu guardei boa parte das entrevistas que eu fiz e uma postagem no Facebook me deu a ideia de reeditá-las. Inclusive pretendo vasculhar meu arquivo para entrevistas feitas entre 2002 e 2009, com gente como Felipe Massa, Reginaldo Leme, Galvão Bueno, Bruno Senna (com Flavio Gomes), Cláudio Carsughi (em parceria com o Marcus Lellis), Tony Kanaan (com Victor Martins e Evelyn Guimarães) e Chico Serra, entre outros.

Aos poucos eu vou postando elas, tem algumas que precisarei passar para o computador, pois estão impressas, e a ideia é incrementar com fotos e vídeos que na época não estavam disponíveis. A maior parte delas permanece atual, pois remetia à relembrar carreira deles. No caso de Christian, fica faltando o domínio recente dele na Grand-Am, mas ele já havia vencido a prova na época do papo.

Pensei até em tirar as perguntas de época, mas pensei e acredito que o interessante delas, além das histórias, é entender o que acontecia com ele naquela época e comparar com a posição dele hoje na história do esporte. É longa, mas bem completa e vale muito a leitura. Não me lembro de ver ele falar com tanta sinceridade assim em outros bate-papos.

Sendo assim, com vocês, Christian Fittipaldi (e obrigado à família GP por deixar eu reutilizar este material):

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Emerson e Christian (José Mário Dias)

As coisas aconteceram muito rápido para Christian Fittipaldi. Oriundo de uma família que respira velocidade e dispensa apresentações, este paulistano de 36 anos teve de receber uma autorização especial para poder estrear nos monopostos aos 17 anos, em 1988, na F-Ford.

Quatro anos e três títulos depois (nas F-3 brasileira e Sul-americana e na F-3000), Christian disputou sua primeira temporada na F-1, onde ficou três temporadas por Minardi e Footwork/Arrows, passando por poucas e boas. Em uma época bastante competitiva, com 26 carros no grid e seis com chances de pontuar, o filho de Wilson Fittipaldi alternou alguns bons resultados com acidentes impressionantes.

Sem perspectivas na categoria máxima do automobilismo em 1995, o piloto viu, aos 24 anos, a chance de crescer nos Estados Unidos. Nos tempos áureos da F-Indy/CART, conquistou um segundo lugar na Indy 500 e garantiu espaço na Newman-Haas, uma das três principais equipes da categoria.

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Christian todo estourado em 1997

Só que muitos acidentes graves, como o sofrido na Austrália em 1997 (onde fraturou a perna direita) atrapalharam a carreira de Christian e, sete anos após sua estréia na CART, nenhum título e poucas vitórias foram conquistadas. Até o espírito pioneiro baixar e o sobrinho de Emerson se tornar o primeiro brasileiro na história a competir na divisão principal da Nascar.

Depois disso, competiu nas mais tradicionais provas do mundo pela Le Mans Series e Grand Am, vencendo, inclusive, as 24 horas de Daytona. No Brasil, teve uma passagem de dois anos pela Stock Car, categoria a que não descarta um retorno no futuro.

Christian se encontrou com o Grande Prêmio em uma das poucas oportunidades do ano em que está no Brasil, durante a disputa das 500 Milhas de Kart da Granja Viana, prova que também já venceu. Poucas horas antes da largada, quando atacava um lanchinho, o piloto respondeu calmamente todas as perguntas, muitas vezes em terceira pessoa e usando alguns termos em inglês. E, antes de fazer as questões mais “cabeludas”, decidimos atacá-lo pelo estômago para quebrar o gelo…

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Christian: único brazuca correr F1, Indy e Nascar

Grande Prêmio: Antes de começarmos a falar do que interessa… Que história é essa da pizza que você faz com o Tony nos EUA?
Christian Fittipaldi: A gente começou a fazer isso uma vez que teve um churrasco na casa do Tony. A gente chegou lá morrendo de fome e havia umas pizzas congeladas que nós levamos lá. Só que, para fazer ela, precisávamos aquecer o forno e isso levava uns 20 minutos, além dos 10, 15 minutos para a pizza ficar pronta. Estávamos “varados” de fome e alguém teve a idéia de colocá-la na churrasqueira. Quando fomos ver, ficou bom pra caramba! Depois daquele dia a coisa pegou: tanto na casa do Tony, quanto em casa, compramos pizza congelada e colocamos na churrasqueira.

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GP: Vocês dois são bem parceiros, né?
CF: O Tony devia ter uns oito, nove anos quando começou a andar de kart, e eu tinha uns 13 quando nos conhecemos. Somos amigos há muito tempo…

“Se você fizer uma enquete com todos os pilotos, talvez o único que vai dizer que conseguiu tudo o que queria talvez seja o “Seu” Schumacher. Mesmo ele, com tudo o que ganhou, certamente teve algo que quis e não conseguiu fazer.”

GP: E você passa mais tempo nos Estados Unidos que aqui no Brasil, praticamente…
CF: Com certeza. Fazia quase um ano que não vinha para o Brasil. A última vez havia sido no ano passado para essa corrida (no caso, as 500 Milhas de Kart) e para a final da Stock Car.

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GP: Você está com 36 anos de idade. Olhando para trás, você pode falar que atingiu todos os seus objetivos?
CF: Objetivos, sim. Da maneira que queria, não. Mas, se você fizer uma enquete com todos os pilotos, talvez o único que vai dizer que conseguiu tudo o que queria talvez seja o “Seu” Schumacher. Mesmo ele, com tudo o que ganhou, certamente teve algo que quis e não conseguiu fazer. Objetivos, sim, e a coisa que mais me deixa contente é que, graças a Deus, tive a chance na minha vida de pilotar quase todos os tipos de carros de competição que existem no mundo. Não tem nenhum carro no mundo que eu não corri até hoje. Não tem nenhuma corrida no mundo, das importantes, que não participei. Em algumas fui bem melhor do que outras, mas estou contente de poder ter essa chance.

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Christian na F3 Inglesa

GP: Você e o Rubens Barrichello foram contemporâneos e travaram ótimas disputas nas pistas. Comparando as duas carreiras, você sente algum tipo de frustração ao não ter conseguido atingir um patamar que ele alcançou, de disputar vitórias na F-1 e correr por times grandes?
CF: (pensativo). Não atingi o patamar na F-1, mas, por outro lado, fui para Indianápolis, terminei em segundo na minha primeira tentativa, ganhei corridas nos EUA, enfim, terminei 25 ou 28 vezes no pódio em toda a minha carreira lá. Chegou uma hora em que partimos para dois rumos totalmente diferentes. Sinceramente, no momento em que fui para os EUA, não sabia que faria uma carreira lá. Achei que fosse fazer um ano nos EUA e voltar para a F-1, mas as coisas foram se desenvolvendo de uma tal maneira que acabei ficando lá. Aí se passaram dois, três anos, e comecei a construir uma vida nos EUA. Quando olhei para trás, havia se passado sete, oito anos da minha vida, e chega uma hora que você até perde o contato com as pessoas na Europa. Mas, sinceramente, estava contente com tudo nos EUA e perdi até um pouco da motivação de, eventualmente, voltar para a Europa e guiar um carro de F-1 de novo. O “timing” ainda tinha, mas perdi um pouco de motivação, por estar há tanto tempo nos EUA com um certo sucesso que consegui construir lá. Então pensei: “não vou voltar agora para lá, nesta altura do campeonato”.

GP: Aliás, o Barrichello acabou tendo uma função muito importante em uma de suas conquistas, na F-3 Sul-americana… Como foi?
CF: Diga-se de passagem: não sei nem como ganhei aquele campeonato. Eu corri de (chassi) Reynard que, naquele ano, era muito inferior ao Ralt. E, em uma corrida ou outra, marcávamos pontos. Nas que dava para acertar um pouquinho mais, cheguei a ganhar duas vezes, aproveitando algumas situações. Na última corrida do ano, o carro não andava nada. Estava perdido, não conseguia andar, chegaria em quinto e, caso isso acontecesse, o (Oswaldo) Negri não podia ganhar. Só que o Rubinho o passou na última volta e venceu. Graças a isso, acabei ganhando o campeonato. E olha como são as coisas: pelo fato de ter corrido de F-3 aqui, no ano seguinte eu corri no carro de fábrica da Reynard na F-3000 e fui campeão na Europa, que, para mim, foi dez vezes mais importante que ser campeão da F-3 Sul-americana. Apesar da gente quase ter perdido a chance de ganhar aqui, no final acabou valendo muito mais a pena.

“Não atingi o patamar na F-1, mas, por outro lado, fui para Indianápolis, terminei em segundo na minha primeira tentativa, ganhei corridas nos EUA, enfim, terminei 25 ou 28 vezes no pódio em toda a minha carreira lá.”

GP: Naquele ano, inclusive, você disputou a F-3 Sul-americana e a F-3 Inglesa ao mesmo tempo. Quanto isso foi estafante para você?
CF: O negócio acabou rolando da seguinte maneira: eu tinha todo o dinheiro para correr aqui no Brasil e não tinha todo o dinheiro para correr lá na Europa. Faltava um pouco. A Philishave, que me patrocinava na época, chegou para o meu pai e disse: “Tá bom, se ele correr outra temporada aqui no Brasil (onde eles tinham todo o retorno deles), a gente paga o que falta para completar o “budget” (orçamento) lá na Europa”. Então, por isso, fiz os dois campeonatos. Não me arrependo nem um pouco, mas fui mais ou menos forçado a correr de novo aqui no Brasil para ter o dinheiro suficiente para correr lá fora.

GP: Depois disso, você despontou de vez no cenário mundial ao ganhar a F-3000 em uma disputa ponto a ponto contra Alessandro Zanardi e uma trupe de nomes importantes, como Heinz-Harald Frentzen, Allan McNish, Damon Hill, Karl Wendlinger e muitos outros. Foi sua principal conquista?
CF: (pensativo) Ah… Sim e não. Por um dos aspectos, que era estar a um passo da F-1, mas também, por outro lado, por exemplo, ter competido na Indy e quase vencido em minha primeira tentativa foi algo bem grande. Outra corrida que não tem tanto peso que consegui ganhar e dou muito valor são as 24 Horas de Daytona, que demos muita sorte, pois é muito longa e muitas coisas acontecem. Velocidade pura não é vital lá. Respondendo diretamente sua pergunta: foi muito importante e o fato de ter sido campeão abriu portas na F-1.

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Christian e seu mítico F3000

GP: Aliás, a sua carreira e a do Zanardi tiveram destinos muito parecidos, sem chances concretas na F-1 e consagração nos EUA. Você acompanhou de perto quase todas as situações que ele enfrentou e hoje ele é um exemplo de superação. Como foi sua convivência com ele?
CF: Tenho uma convivência boa com ele, mas não somos amigos de ficarmos nos falando direto. Mais ou menos o admiro muito por tudo o que fez depois do acidente quase trágico em 2001. Com certeza, acho que ele é bem fera, mas admiro muito mais o que ele fez depois do acidente do que antes. Antes, sem dúvida nenhuma, ele foi um piloto excepcional, mas, o que pouca gente sabe, estava no lugar certo e na hora certa. Te dou um exemplo rápido aqui: quando corri diretamente contra ele na F-3000, fui o primeiro e ele, o segundo. Quando fui para a Newman-Haas, o Carl (Haas) tinha na mesa a chance de ir de Honda/Firestone, mas decidimos ir de Ford/Goodyear na época. Quando negamos a Honda e a Firestone, eles partiram para a segunda opção, que era a equipe do Chip Ganassi, e o Zanardi andou com esse conjunto, que fez uma diferença muito grande e ele foi bicampeão. Claro que ele não vai admitir isso, mas todo mundo lá sabe. É só perguntar para o Tony, por exemplo. De maneira alguma estou tirando o mérito dele, mas, com certeza, o fato do Carl (Haas) ter falado “não” para a Honda e a Firestone mudou radicalmente a carreira tanto minha, quanto do Michael (Andretti). Acho que a história seria diferente se a gente corresse com esse conjunto. São coisas da vida e foi do jeito que foi. Não podemos mudar o que já aconteceu e bola pra frente.

GP: Voltando um pouco para a F-1. Qual a sensação que você teve naquela tarde de domingo de 1992, quando alinhou o Minardi no grid em Kyalami, na África do Sul?
CF: Me senti um pouco nervoso, com tudo no ar, sem saber o que iria acontecer. Mas, ao mesmo tempo feliz e muito contente por ter corrido tantos anos e conseguido chegar aonde tanto queria. Me lembro que, naquela época, a única coisa que passava pela minha cabeça era F-1, F-1, F-1. E devo admitir que em todo o tempo em que competi na Cart, acho que gostava de guiar um carro de corrida menos do que hoje em dia. Era tanta pressão, dinheiro envolvido, o fato de ter de tomar as decisões certas… E uma das grandes lições que aprendi na minha vida, de 2002 para cá, é ter a certeza de que sou um apaixonado por guiar. Dou muito mais valor ao fato de guiar hoje em dia do que dei praticamente em minha carreira inteira, pois havia muitos interesses. Eram carros rápidos, violentos, a pressão era muito grande e, hoje em dia, que eu corro em outro tipo de competição, admiro muito mais.

“E uma das grandes lições que aprendi na minha vida, de 2002 para cá, é ter a certeza de que sou um apaixonado por guiar. Dou muito mais valor ao fato de guiar hoje em dia do que dei praticamente em minha carreira inteira, pois havia muitos interesses.”

GP: A gente vê garotos como Nelsinho Piquet, Bruno Senna e, em uma ótica bem distante, Cacá Bueno, que carregam o peso de um sobrenome famoso. No seu caso, o Fittipaldi devia ter pesado em dobro nas suas costas… Ou não?
CF: Pesou como pesa para todo mundo. O Cacá é numa ótica bem diferente, mesmo, pois as coisas pesam mais para ele no lado comercial do que dentro das pistas. Já eu, o Bruno e o Nelsinho com certeza estamos em uma posição parecida. Se o Christian ganhar essa corrida é normal. Ele tem que ganhar, afinal, é um Fittipaldi. Com o Nelsinho e o Bruno é a mesma coisa. Se o Christian terminar em um bom segundo, ele não foi segundo, ele perdeu a corrida. O Cacá nunca sofreu isso dentro das pistas, mas, por outro lado, ele tem a pressão do lado comercial: (falando como se fosse outra pessoa) “Ah, pro Cacá é muito fácil ele conseguir dinheiro, patrocínio, porque ele é filho do Galvão”. Com certeza, uma série de portas se abrirá para ele, mas, por outro lado, a cobrança também será enorme e eles vão dizer: (novamente, interpretando) “Pô, eu te dei uma mão no começo do ano e também tava esperando bastante de você . Um dos motivos pelos quais eu te dei uma mão é porque você é filho do Galvão”. O sobrenome ajuda, mas, ao mesmo tempo, atrapalha. E atrapalha para todos nós. O negócio é saber viver com essa pressão a mais e tentar fazer um balanço da melhor maneira possível.

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A tensão na temporada de estreia na F1

GP: Seu primeiro ano foi complicado e contou com uma característica que marcou sua carreira: os graves acidentes. Você ficou muito assustado com a pancada que deu em Magny-Cours?
CF: Ninguém gosta de bater, quebrar uma vértebra e trincar outra. Não é que eu quebrei um braço. O braço todo mundo arruma. Se eu quebrasse uma vértebra até de uma maneira mais complexa, de repente estaria aqui numa cadeira de rodas. Pelo amor de Deus, gente… (dando três toques na madeira da mesa e na parede do box). Mas é óbvio que, se disser que não fiquei assustado, estarei mentindo para você. Isso te faz repensar uma série de coisas. De uma maneira geral, de todos os acidentes que tive, o que me fez pensar mais foi o da Austrália (em Surfer’s Paradise, no ano de 1997, pela CART), onde não cheguei a “apagar” dentro do carro e senti muita dor no momento em que eles (os médicos) me tiraram do carro. Em todos os outros acidentes que sofri, em Milwaukee, Chicago e St. Louis, cheguei a “apagar” e não saber o que estava acontecendo. Acordava na ambulância, lá no hospital, ainda zonzo. Mas, na Austrália, lembro que a dor era meio grande e chega a passar pela sua cabeça, sem dúvida nenhuma: “Será que vale a pena fazer isso, pra quê? O que vai valer isso daqui cinco, dez anos?”. Infelizmente, o ser humano tem memória curta e, óbvio que, se você consegue várias conquistas, todo mundo vem no dia seguinte, bate no seu ombro e diz: “Parabéns, legal”. Mas, depois de dois meses, bola pra frente, todo mundo já esqueceu. É uma tendência do ser humano ser um pouco assim.

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Christian e Schumacher em Ímola, 1992

GP: Qual foi a frustração de não se classificar para as corridas, como aconteceu na Bélgica e na Itália naquele ano?
CF: Na Bélgica, fiquei de fora do primeiro dia e choveu no segundo. Não tive 100% de chances de me classificar. Na Itália, fiquei de fora “fair and square”, não tinha o que justificar. Com certeza, não estava rápido o suficiente. Quando voltei do meu acidente na França, levei certo tempo para tudo “clicar” de novo e, se você tivesse me perguntado na época se o carro tinha condições de se classificar, teria respondido que sim. Nas duas corridas, o Gianni (Morbidelli) tinha se classificado fácil. Ele havia sido 15º em Spa e 12ª em Monza. Então, o carro era muito melhor do que aquilo que eu estava fazendo. Depois fui ao Estoril e consegui me classificar bem no limite. Larguei, terminei em nono, fiz a corrida inteira e acabei andando forte. Durante a corrida, parecia que havia dado um estalo na minha cabeça e “tuf” (como se algo tivesse desaparecido). Aí fui para o Japão, me classifiquei em 12º e terminei em sexto, marcando o único ponto da Minardi naquele ano. Então, não sei, é uma coisa que não sei explicar. A F-1 é tão competitiva que, às vezes, estava perdendo um pouco e, de repente, deu um estalo e eu fui embora. Daí pra frente, não tive mais problemas.

GP: O ponto no Japão, então, foi um grande alívio…
CF: Não só pra mim, mas para a equipe, também. O time teve de pagar menos dinheiro no ano seguinte, pois passou a ganhar mais da Foca (antiga FOM). Estava todo mundo extremamente feliz com o ponto, não só por mim, por ter sido meu primeiro ponto na F-1, mas pelo fato de ter dado uma aliviada na Minardi e ter garantido a próxima temporada.

“Tive aquela sensação duas vezes. Uma vez de avião, pousando em Angra dos Reis, onde achei que fosse morrer, e a outra vez, em Monza. Foram as duas vezes que passou o filminho da minha vida inteira pela minha cabeça na fração de um segundo.”

GP: O ano seguinte, 1993, parecia que seria bem melhor, com você conquistando seu melhor resultado na carreira, na África do Sul (um quarto lugar). No entanto, com a fusão de Minardi e Scuderia Itália, você ficou sem lugar para as corridas finais. Como foi lidar com esta frustração?
CF: É muito simples: tinha um piloto italiano, e todos seus patrocinadores eram da Itália. Era o “menininho de ouro” do Giancarlo Minardi (o piloto em questão é Pierluigi Martini). Aí apareceu outro com US$ 500 mil para fazer duas corridas (Jean-Marc Gounon). Eu não tinha dinheiro, é óbvio que a Minardi não tinha dinheiro, e ela resolveu enfiar um piloto mais lucrativo, me deixando meio que a ver navios. Pensamos seriamente em fazer alguma coisa contra a equipe. Tinha todo o direito do mundo, mas, por opção do meu pai e minha, decidimos deixar quieto. “Você tem uma carreira inteira pela frente, não vamos brigar por causa de duas corridas. O máximo que iria acontecer era você ganhar a nível financeiro o valor que ele estava te pagando, talvez um pouquinho mais por ter criado danos morais na sua carreira”. E a nossa opção na época foi ter deixado quieto. Cobrimos tudo com panos mornos e seguimos em frente, não tinha muito o que discutir.

GP: O famoso looping em Monza foi a pior sensação que você já passou a bordo de um carro de corrida?
CF: Tive aquela sensação duas vezes. Uma vez de avião, pousando em Angra dos Reis, onde achei que fosse morrer, e a outra vez, em Monza. Foram as duas vezes que passou o filminho da minha vida inteira pela minha cabeça na fração de um segundo. Quando estava acontecendo a ação, parecia uma eternidade. Tanto que tudo aconteceu em um segundo, um segundo e meio, mas parecia que estava há horas ali dentro do carro. Quando a gente foi pousar de avião, foi mais ou menos a mesma coisa.

GP: Podemos dizer que 1994 foi o melhor ano de sua carreira na F-1?
CF: Duas corridas que me marcaram bastante foram Mônaco em 1993 e 1994. Em 1994, terminei três vezes nos pontos, fui desclassificado no Canadá e vale lembrar que, na época, pontuavam os seis primeiros e largavam 26 carros. Hoje em dia, se você pegar meu histórico todo, teria pontuado em praticamente dez corridas, pois terminei uma série delas em sétimo e oitavo. Então, é meio difícil dizer “o que você acha que fez na F-1”. Acho que minha carreira, visando os carros que guiei, foi dez vezes melhor do que pareceu, em minha opinião. Tanto que, se você pegar todos os pilotos que guiaram uma Minardi, acho que, comparativamente, sou o piloto que mais pontos marquei em menos corridas disputadas pela Minardi. Acho que o piloto que marcou mais pontos foi o “Seu” Martini, mas ele correu quatro ou cinco anos a mais de Minardi do que eu. E fui o segundo piloto da Minardi que mais pontos marcou.

GP: Fiquei curioso com o “Seu” Martini…
CF: Não tenho nada contra aquele cara, mas não tenho nada a favor. Enfim, o cara foi um rato em Monza, ele realmente tirou o pé, ta lá na telemetria, e esta foi outra coisa que a gente deixou quieto. O Fernando, lá da telemetria, acabou trabalhando comigo sete anos depois e a gente já discutiu várias vezes sobre isso. Eu vi que ele tirou o pé. Só que, por ordem do Minardi, ele falou “deixa quieto, isso daí nunca existiu”. Enfim… É óbvio, eu já não confiava no cara e, depois daquilo, não confio em absolutamente nada, desejo tudo de bom na vida dele, mas que ele foi um rato naquela tarde de Monza, isso ele foi.

“O Fernando, lá da telemetria, acabou trabalhando comigo sete anos depois e a gente já discutiu várias vezes sobre isso. Eu vi que ele (Martini) tirou o pé. Só que, por ordem do Minardi, ele falou “deixa quieto, isso daí nunca existiu”.

GP: Todo mundo fala do Barrichello, da responsabilidade que ele carregou quando Senna morreu. Você também sentiu essa pressão?
CF: Acho que criaram isso muito em volta dele (Barrichello) e, de repente, quem fazia a assessoria para ele criou isso. É óbvio que aqui no Brasil existe muito isso. O povo brasileiro é voltado para a F-1. Ou é a F-1 ou nada, não existe outra categoria no mundo. E acho que quem trabalhava com ele e fazia toda essa assessoria acabou explorando mais esse lado ao tentar ligar o Rubinho ao Senna que criou uma pressão maior para o lado dele talvez só no primeiro e segundo anos. Mas acho que, se você olhar para o arco da carreira dele (Barrichello), depois esta pressão acabou. Querendo ou não, o Senna será sempre o Senna, mas depois de dois anos, três anos, ele não está mais aqui, não dá pra trazer ele de volta. Ele foi, sem dúvida nenhuma, o melhor piloto da F-1, um dos melhores, mas ele não existe mais. A vida continua, e eu acho que é assim que você tem de encarar, não adianta chorar em cima do leite derramado. Evidentemente, o que aconteceu foi uma tragédia, uma infelicidade gigante, mas também o mundo não vai parar por causa daquilo. Todo mundo ficou extremamente chateado… Não tem nem como descrever, mas você não ia parar de viver, nem eu. A gente tem que continuar tocando o barco.

GP: Por que você decidiu mudar de ares em 1995? Não havia espaço para você mais na F-1?
CF: Acho que não tinha espaço naquele ano da maneira que queria. Tinha uma chance de ir para a McLaren como piloto de testes, sem garantias de que eu correria como titular e isso era o que tinha na minha mão. Me encontrei com o pessoal da McLaren e é isso que eles ofereceram. E tinha a oportunidade de continuar numa equipe média, onde estava (Footwork/Arrows). Infelizmente, em algumas situações – muito mais naquela época do que hoje em dia – não tive a paciência de insistir um pouco mais. Acho que, se voltasse no tempo, teria feito diferente, insistido um pouco mais na F-1, mas as coisas já passaram, não insisti, quero deixar bem claro que fui eu que tomei a decisão de cair fora de lá, ter ido correr de F-Indy, agarrar a chance que tive lá. Não fui obrigado pelo meu pai, nem a convite do Emerson, foi uma decisão 100% minha e a vida, de uma maneira geral, acabou acontecendo de uma forma diferente para mim.

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Estreia na Indy em 1995

GP: Deve ter sido um sonho poder competir ao lado de seu tio…
CF: Ah, com certeza. Tenho duas alegrias em 1995: a primeira foi a disputa que tivemos em Long Beach. Largamos em oitavo e nono, acho, e o passei na segunda ou terceira volta lá no cotovelinho, passando a corrida inteira juntos, escalando o pelotão. No fim da corrida, estávamos eu em segundo e ele em terceiro. Ele estava mais rápido e eu, tentando o fechar ao máximo. Chegou uma hora em que tentava por dentro e não conseguia, até que ele me passou por fora no fim da reta, na freada, quando não esperava. Me passou “fair and square”, muito bonito, diga-se de passagem, e na hora fiquei chateado por ter perdido a posição, mas contente ao mesmo tempo dentro do carro, pois restavam dez voltas para acabar a corrida e eu pensava: “nossa, vamos terminar os dois no pódio, vai ser legal”. Era minha terceira corrida de F-Indy. Faltando cinco voltas, ele quebrou e, faltando duas, eu quebrei. Esse foi o lado de maior alegria que a gente teve junto. O lado ruim foi em Indianápolis: quando me classifiquei, me lembro direitinho que estava entrando nos boxes e ele estava me felicitando (repetindo os gestos feitos por Emerson), tenho essa foto até hoje. Quem diria, duas horas depois, ele ficaria fora da corrida mais importante do ano.

GP: Você esperava andar tão bem em Indianápolis em seu ano de estréia?
CF: Eu, com certeza, “gramei” muito mais para me classificar do que na corrida. Não sei se essa é uma característica minha, mas a partir do momento em que consegui me classificar, um peso de 40 mil toneladas saiu do meu corpo. Falei: “Nossa, agora zeramos”. E na época tive aquele “feeling” de que andaria bem na corrida. Me lembro como se fosse ontem: saí no warm up, na quinta-feira – que, na verdade, não conta muito –, dei sete, oito voltas, fiquei entre os dez primeiros, parei nos boxes e falei: “O carro está perfeito, não toca no carro, está bom pra caramba. É só largar e tentar ir pra frente”. E foi isso que aconteceu na corrida.

“Se o Christian tivesse corrido lá um ano antes, faria uma diferença muito grande. O Jacques (Villeneuve) já havia corrido no ano anterior.”

GP: E o que faltou para você vencer?
CF: Um pouco de experiência, para ser sincero. Se o Christian tivesse corrido lá um ano antes, faria uma diferença muito grande. O Jacques (Villeneuve) já havia corrido no ano anterior. São poucos os pilotos que ganham na primeira tentativa lá, mas, de repente, se a situação tivesse sido um pouco diferente para mim, eu teria me aproveitado mais. Acho que faltou um pouco de experiência e lembro que, nas últimas dez voltas, o carro estava saindo extremamente de traseira. Tanto que o Bobby (Rahal) terminou colado no meu câmbio. Quando a prova acabou, vimos que o fundo do carro tinha soltado e, com isso, perdia muito downforce. Nas últimas dez voltas, quase rodei e bati umas duas vezes. O carro estava muito sensível. Agora, vai saber quando isso aconteceu… Não estou pondo culpa nisso. O que faltou foi mesmo foi experiência. De resto, foi tudo perfeito (o carro, as paradas nos boxes, etc).

GP: Sua performance chamou a atenção da Newman-Haas, para onde você foi no ano seguinte. Lá, você mostrou uma enorme consistência, andando bem e terminando quase todas as corridas que disputou. Só faltava a vitória, que bateu na trave muitas vezes. Qual foi a sensação quando ela finalmente chegou, em 1999?
CF: Meu “namoro” com o Carl (Haas) começou quando eu ainda estava na F-1. Lembro que, antes de ir para o GP da Hungria de 1994 ele me ligou e eu deixei a festa de 50 anos do Emerson direto para Chicago, onde passei o dia com ele e conversamos bastante. O único motivo pelo qual não fui direto da Arrows para a Newman-Haas é que, na hora do vamos ver, a Budweiser (patrocinadora principal de um dos carros da equipe na época), queria um piloto que já tinha corrido lá. Então, eles optaram pelo Paul Tracy. Mas, pelo Carl, ele iria comigo. Em 1995, logo na segunda corrida, já estávamos conversando. Meu contrato com ele já estava assinado no fim de maio, começo de junho. Foi logo no começo da temporada. Voltando ao assunto, são coisas da vida. Com certeza, se pegar a história da F-Indy, o piloto que mais vezes subiu ao pódio com menos vitórias, proporcionalmente, fui eu. Agora, vai me perguntar se foi falta de talento, de sorte, de estrela que não sei, mas a estatística está lá. Alguma coisa aconteceu no meio do caminho e é como você disse, bateu na trave várias vezes, como em Detroit e Elkhart Lake em 1996, quando quebrei restando cinco voltas. São coisas que acontecem e, o que ninguém sabe: se tivesse dado cinco voltas a mais em Elkhart Lake, teria ganhado a corrida (o líder na ocasião, Al Unser Jr., abandonou no fim) e seria vice-campeão, não o quinto colocado. Isso mudou muito meu campeonato.

GP: Aliás, os fortes acidentes marcaram sua trajetória na Cart. Quatro deles foram sérios e, de oito temporadas, três você disputou todas as etapas. O que levava você a se acidentar tanto?
CF: Acho que, historicamente, teve gente que bateu muito mais que eu. O que posso dizer?… O Christian se machucou, os outros não se machucaram. Teve gente que se machucou sério, o Christian se machucou, mas, graças a Deus, conseguiu se recuperar 100%, então, acredito muito na estrela que você tem. Eu tive uma infelicidade em nível de resultado e desempenho em uma série de corridas que teriam mudado a história do Christian, sem dúvida nenhuma. Mas, por outro lado, tive a felicidade de não ter me machucado mais. Então, sinceramente, não estou reclamando. A vida foi do jeito que foi, e estou contente de estar aqui e conversando com você. De repente poderia estar em uma situação 30 vezes pior. O Zanardi ganhou muito mais corridas que eu, foi bicampeão, mas está na cadeira de rodas. Não troco a minha situação pela dele por nada na vida, então aconteceu do jeito que aconteceu, e Deus criou um caminho para todos nós. Isso se você trabalhar e viver dentro de uma vida normal. Claro que, se você passar por um radicalismo muito grande, você consegue mudar, mas não é o meu caso. Tudo o que faço, procuro fazer com seriedade.

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Em 96 com a Newman-Haas em Laguna Seca

GP: Você competiu sete anos pela melhor equipe da Cart e não conseguiu lutar por títulos. O que faltou? Sorte?
CF: Não sei se sorte é a palavra certa… Estrela… Com certeza, tive algumas situações em que faltou sorte. Inclusive em 2002, quando – você pode perguntar até pro Tony –, a gente brincava: na Newman-Haas existiam dois carros: o que quebrava e o que não quebrava. Não sei por que o meu sempre quebrava. Mas é o que te falo: não troco essas quebras pela saúde que tenho hoje em dia. É difícil fazer um balanço e olhar para trás. Faltou sorte? Em algumas situações, faltou. Faltou, de repente, aquilo que o Emerson teve e aquilo que eu vi no meu pai e faltou nele: um pouco de estrela. Meu pai tinha velocidade, talento… Principalmente as pessoas mais velhas falam isso pra mim. Pelo amor de Deus, em nenhum momento estou tirando o mérito do Emerson, mas o Emerson é o cara que teve a estrela no momento certo e isso todo campeão precisa ter. Você não consegue ganhar títulos nem corridas sem a estrela do seu lado. Qualquer um, sem exceção nenhuma.

GP: No fim de 2002, você novamente mudou de ares e foi para a Nascar. Como foi essa experiência, comparada com outras categorias?
CF: Foi diferente. Não estou arrependido, mas é um esporte extremamente fechado. Se voltasse atrás, a situação que eu adoraria era ter ido para a Nascar não como um piloto contratado, mas sim um piloto que alguém fizesse um cheque e falasse: “Você tem US$ 12 milhões. Vá correr onde quiser, na equipe que escolher”. Essa era a situação que daria tudo para ter e não tive. Achei que, indo para a Petty e juntar dois sobrenomes grandes, o meu e o do Kyle Petty, o pacote seria mais atraente para a Nascar e ela, em si, iria ajudar a equipe bem mais – não em nível de performance, mas do lado comercial, ajudando a equipe a arrumar mais patrocinadores para o carro. Só que eles não se mexeram e fiquei, não vou dizer chateado, mas um pouco desiludido. E chegou num ponto que, com um contrato de três anos, em 2004 estava sendo pago para ficar em casa. Chegou uma hora, no meio do campeonato, que virei e disse: “Não estamos indo para lugar nenhum, vamos terminar isso aqui, que não está sendo bom pra mim, nem para vocês. Vocês estão me pagando para ficar em casa e eu vendo televisão. Não é isso que quero para mim”. Sempre corri a vida inteira e sempre vou correr até o dia em que não estiver mais motivado. Quando isso acontecer, vou soltar o cinto de segurança e dizer: “Muito obrigado a todos que me ajudaram e um abraço”. Não sei o que vou fazer depois. De repente vou tirar o resto da vida sabático (risos). Quando chegar nesse ponto vou pensar, mas vou correr enquanto existir esse fogo dentro de mim. O dia em que esse fogo acabar, pode ser o ano que vem ou daqui a dez anos, acabou.

“Faltou, de repente, aquilo que o Emerson teve e aquilo que eu vi no meu pai e faltou nele: um pouco de estrela.”

GP: Com exceção da A1, em 2006, você direcionou sua carreira para os carros fechados e se deu muito bem, ganhando as 24 horas de Daytona e competindo com destaque na Grand Am, na Stock Car V8 e, por último, na LMS. Podemos dizer que você se encontrou no turismo?
CF: Ah… (pensativo) Sim e não. Não é o carro que eu mais me diverti em guiar. Óbvio, um carro de corrida é sempre um carro de corrida, mas sempre fui mais correr de formula do que de turismo. Ganhei as 24 Horas de Spa de 1993 em um Porsche e aquilo pra mim não significou muito, pois não estava com o tesão de guiar aquele carro. Meu tesão veio sempre de guiar carro rápido. Por isso estou extremamente animado agora em estar correndo na próxima temporada no carro da divisão P2 da Honda e, eventualmente, se der tudo certo, a gente vai para Le Mans. Estou mais animado por ter um carro rápido de novo. Os carros lentos, de turismo, no mundo inteiro, são legais e geram corridas competitivas, mas dão uma nivelada por baixo, pois é só aquilo e não tem como evoluir. Então, sinceramente, qualquer um que sentar no carro anda mais ou menos igual. Aí você vai perguntar: “Por que uns ganham mais e outros não?”. É aí que faz a diferença o piloto mais esperto e o inexperiente, que é menos “vivido”. Não na velocidade, mas sim no fato dele saber que, o dia em que o carro não está bom, ele vai aceitar chegar em sétimo e oitavo e ter a certeza de que, no fim do ano, esses pontos farão a diferença. É o contrário de querer passar o cara que está em sexto e se enroscar, ficando fora dos pontos.

GP: Stock Car nunca mais?
CF: Longe dessa palavra, “nunca”. Acho que, se voltar, quero retornar em uma condição bem competitiva, mas voltar na mesma situação que corri nos dois anos anteriores, não, não tenho o menor interesse. Agradeço a tudo o que a Reunion (empresa de marketing esportivo que levou o piloto para a V8) fez, de ter colocado um carro para mim, com os melhores esforços possíveis durante um ano e meio. Ao (Eduardo) Bassani também, tentamos o máximo. Eram duas equipes boas, mas que não estavam ganhando. Hoje eles ainda não estão ganhando. Acho que, principalmente no primeiro ano, nas últimas quatro corridas, atingimos o ponto ideal. Em Tarumã me classifiquei em oitavo, em Buenos Aires fiz a pole, no Rio me classifiquei em terceiro e, em São Paulo, estava andando sempre entre os primeiros e (risos), na classificação, bati antes mesmo de abrir a volta, quando a pista estava meio seca, meio molhada, mas teria ficado entre os dez. Terminamos o ano bem, estava com a mão do carro, o (José Avallone) Neto deu uma força para mim, assim como o Maurício (Ferreira, da Full Time), que trabalhou direto no meu carro.

A1 Grand Prix
Christian pela etapa da China da A1, em 2006

GP: Todo mundo fala que a Stock Car não é uma competição de verdade. Você concorda?
CF: Eu vejo a Stock com bons olhos, mas também concordo com todo mundo: não é uma competição de verdade. Mas, se você perguntar pra mim se estou arrependido, diria: de maneira nenhuma E, se você me perguntasse se eu faria de novo, diria que, na condição certa, absolutamente. Me diverti bastante lá, acho que as disputas que tive na pista foram ótimas, mas, se você perguntar se ela é tão intensa como uma corrida de F-1 ou F-Indy nos dias áureos, não. A pressão é dez vezes menor. É, com certeza, a categoria top deste país. Na situação certa, teria todo o interesse em entrar. Mas ainda vou queimar muita lenha lá fora antes de voltar para a Stock. Foi uma das decisões que tomei no fim do ano passado, pois não achei certo correr aqui e nos EUA. Agora, vou correr apenas em um lugar. Quando for correr aqui, quero dar 110% de mim, tanto dentro quanto fora das pistas, no lado comercial, pois acho que perdi muitas oportunidades aqui pelo fato da pressa de ir para os EUA. Acho que deixei muitas coisas passarem por causa disso.

GP: Quando você era pequeno, seu tio criou a Fittipaldi, mas ela acabou quando você dava seus primeiros passos. Vinte anos depois, você pôde competir em um time chefiado por Emerson na A1. Como foi essa sensação?
CF: Foi, sem dúvida nenhuma, ótima. Vou ser sincero: como todo mundo tem seus problemas familiares, eu me dou bem com meu tio, mas a gente não se dá perfeitamente bem. Só que uma coisa que me chamou a atenção: na pista a gente se deu extremamente bem. Acho que toda a experiência que ele tem se completou com a minha dentro da pista. Ele foi um cara extremamente paciente: você falava e ele sabia exatamente do que você estava falando. Isso foi o que mais me chamou a atenção. Aquilo “clicou” e os resultados na A1, apesar de ter gerado apenas um quarto lugar na primeira corrida, nas outras nós quebramos onde podíamos ter terminados entre os cinco. A única que não era para ter completado bem era na China. Na corrida rápida fui décimo e, na segunda, errei. Rodei, caí e acabou a corrida. A gente se entendeu bem e fora das pistas, na vida normal, é óbvio que tem momentos onde batemos de frente, como acontece com você, com todo mundo. Enfim, temos opiniões diferentes. O que seria do preto se não tivesse o branco, né?

“São coisas da vida. Chega uma hora que você não é mais tão dinâmico como quando você tinha 20 anos. Você acaba vendo a vida de uma forma diferente e tomando dimensões diferentes.”

GP: Falando de família, como foi conquistar as Mil Milhas ao lado de seu grande companheiro, que é seu pai?
CF: Foi uma emoção muito grande, principalmente porque a semana inteira a gente escondeu um pouco o leite, mas não de propósito. A gente tinha motor de classificação e de corrida, escapamento, essas coisas, mas colocava só pra ver se ficava bom. Na semana inteira não exigimos muito do carro e andamos bem, mas normal. E lembro das pessoas comentando: “Ah, o Porsche dos Fittipaldi não está andando nada. O negócio é mais o Piquet, o Barrichello, tal”. Chegando à classificação, dei uma volta bem legal. Peguei apenas um trânsito no Bico de Pato e perdi meio segundo, no máximo. Nos classificamos em segundo, atrás apenas do Porsche turbo – o nosso não era. Na corrida, o Porsche turbo abriu de mim, mas o pneu deles acabou e, quando foi se aproximando o tráfego eu fui chegando, chegando, até que passei e sumi. Depois dali, a corrida foi bem tranqüila. Os favoritos, Nelson com o Ingo, o Rubinho, andaram bem, mas não tinham um carro tão forte como o nosso. A corrida foi bem “straightforward”, bem tranqüila, e terminamos uma ou duas voltas na frente. Foi uma satisfação muito grande, primeiro pelo fato do meu avô ter criado a prova. Segundo, por estar correndo com meu pai. E, terceiro, pelo fato de minimizarem a gente durante toda a semana.

GP: Será que você consegue competir junto com ele outra vez?
CF: Realisticamente, acho que não. Pode até acontecer, mas acho difícil. O nível hoje, mesmo guiando um carro de GT – guiei esse ano na Europa e corri Le Mans nos últimos dois anos – é grande e tem de suar a camisa. E não acho que as pessoas mais velhas, estando tanto tempo fora de um carro de corrida, como meu pai e meu tio, além de outros pilotos, tenham condição de sentar em um carro daqueles e andar como andamos. E, quero deixar bem claro: isso vai acontecer comigo, com o Rubinho, com o “Seu” Tony, com qualquer um. São coisas da vida. Chega uma hora que você não é mais tão dinâmico como quando você tinha 20 anos. Você acaba vendo a vida de uma forma diferente e tomando dimensões diferentes.

Mil Milhas 94 - Wilsinho

GP: Para encerrar, algo que a gente veio questionando durante a entrevista: se você pudesse, faria tudo de novo?
CF: Com certeza. As duas únicas coisas que faria diferente são: não começaria na F-1 tão cedo, apesar de ter me encontrado em uma situação difícil, pois fui campeão da F-3000 e não teria nada a ganhar se tivesse ficado lá mais um ano sem nenhum vínculo com a F-1. Teria assinado um contrato de piloto de testes, corrido mais um ano de F-3000. A outra coisa que faria: insistiria um pouco mais na categoria. Faltou um pouco de paciência da parte do Christian. Desisti muito fácil. Criei uma vida nos EUA e fiquei por lá. De resto, o que posso reclamar? Fui campeão de kart pela equipe Fittipaldi, fui vice de F-Ford, ganhei a F-3 brasileira, a Sul-americana, fui quarto na Inglesa em meu único ano, ganhei a F-3000 e fui pra F-1. Não tem muito o que fazer diferente. Fora meu ano na Inglaterra, todos os campeonatos eu ganhei ou fui segundo. Não podia esperar mais.