1° de maio de 1994 por Reginaldo Leme

Em fevereiro de 2008, tive a oportunidade de, por três horas, entrevistar profissionalmente o jornalista Reginaldo Leme, referência em automobilismo no Brasil. Já estive com ele em diversas oportunidades, mas quase nunca conseguia fazer o que queria: arrancar informações e histórias dele. Por isso, esta oportunidade foi muito comemorada, mais até que a chance de conhecê-lo no início da década. Foram mais de três horas inesquecíveis de conversa. Tive, inclusive, o privilégio de ouvir que esta foi a entrevista mais completa que ele já deu na vida.

O papo foi publicado em duas partes no site Grande Prêmio à época, mas sumiu dos arquivos do site com o passar dos anos, então pensei que a data seria uma boa forma de relembrar esta conversa. Para mim, a entrevista foi tão importante que a guardo como uma relíquia – pois sei que só eu tenho. Para relebrar os 21 anos de passagem de Ayrton Senna, publico abaixo um trecho daquela entrevista relembrando apenas o 1º de maio, aquele dia doído de 1994, e como Reginaldo lidou com a morte de pilotos como Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve e Riccardo Paletti. Como “brinde”, o famoso episódio da briga entre o jornalista e o piloto.

Tanto Reginaldo Leme quanto o site Grande Prêmio autorizaram a reprodução deste material.

Como foi viver a morte na F-1, principalmente a de Ayrton Senna, tão de perto?
A morte no automobilismo, graças a Deus, é cada vez mais rara. Cara, nos meus primeiros anos cobrindo, a morte do Ronnie Peterson foi muito forte. Na segunda-feira após o acidente, eu falei: “Acabou, não vou mais. Não vou ficar perdendo amigos”. Claro que, com a cabeça mais fria, três dias depois, o pensamento muda. Quando o Gilles Villeneuve morreu, voltei para o Brasil e as pessoas me perguntavam: “O que está acontecendo contigo? Você está em silêncio na sua casa, aqui”. Quando chegou o GP seguinte, 14 dias depois, em Mônaco, desci do aeroporto em Nice, fui para Mônaco, larguei as malas no hotel e fui direto para a casa do Villeneuve. Ninguém da família me conhecia, então fiquei sentado na frente da casa dele esperando alguém sair. Uma hora saiu um crioulinho, funcionário dele, junto de duas crianças, que mais tarde vim a saber que eram o Jacques e a irmã dele. Quando ele saiu, fui em sua direção, me apresentei, comecei a conversar. Eles foram para a praia, que ficava próxima dali. A casa dele era mais alta, tinha uma vielinha e, em seguida, a praia. Eu fui junto e, enquanto as crianças se divertiam, fiquei conversando com o rapaz, pois queria falar com alguém da família. Queria estar junto, ali. É impressionante o que sofri. Aí foi seguindo. E outras mortes. Não vi a morte do (Ricardo) Paletti, pois o GP do Canadá era na semana seguinte do GP dos Estados Unidos, só que eu precisei sair de Detroit direto para a Copa do Mundo da Espanha. No domingo a minha mulher me ligou e contou: “Morreu um cara na largada”. Quem? “Acho que é o Patrese”. Falei “caramba”. Era o Paletti. Fui atrás de jornais, não tinha internet, e me lembro que liguei para um jornalista na Itália, que me falou ter sido o Paletti. Aí vai, se perdem outras pessoas, e veio o dia do Senna. Esse dia foi impressionante, pois passou pela minha cabeça tudo o que tinha acontecido no meu relacionamento inteiro com ele: a amizade forte, enquanto existiu, a briga e o que estávamos vivendo naquele momento, que era um reatamento. Isso estava acontecendo havia um ano e meio. Ninguém falando claramente: “Vamos esquecer”. Nada disso. No tempo em que estava brigado com o Senna, na hora das entrevistas coletivas, eu sempre ficava a uma distância respeitável, para não participar da roda, mas ouvir, como informação para mim. E ele sempre me viu fazendo isso. Então teve uma corrida que formou o bolinho, eles entrevistavam, eu ficava a distância e, quando ela acabou, ele me chamou. “Vamos lá dentro no motorhome?”. Quando entramos, ele disse: “Percebo que, nas entrevistas, você está aí a distância, pelo que aconteceu entre nós. E quero dizer que, se você precisar de alguma coisa, pode vir falar comigo. O que passou, passou”, aquelas coisas. Então estávamos nesse processo naquele ano e meio e tudo isso passou na minha cabeça. E o episódio da briga, o tempo em que eu cheguei a sentir algo que não posso chamar de “ódio”. Pelas coisas que ele fazia, o desprezo que me dava quando estava com raiva, eu analisava e pensava: “Ele não é o que eu pensava, ele não vale isso”. Algo normal. Isso vinha muito forte para mim até no momento do acidente. Muito forte. Minha primeira reação foi ligar para minha mulher no Brasil e fiquei, no mínimo, uns 40 minutos no telefone. Chorei. Era tristeza, claro, mas me vinha à mente um misto de tudo. Queria que ela tivesse gravado aquilo. Me lembro de ter dito no fim da conversa: “Você sabe que a gente estava bem, conversando, sendo amigo. Mas você vê que não vale a pena na vida o cara ser frio demais. A frieza dele não permitiu que ele se reaproximasse de mim o tanto que ele queria. Não deu tempo de ele fazer isso.”

E como foi manter o equilíbrio na narração?
Olha, há uma coisa que eu faço na vida, sempre fiz e nem sei explicar: aconteceu, morreu, seja quem for, meu trabalho vai até o fim. E o do Galvão, também. E ele, como estavam na cabine o Leonardo Senna e o Ubirajara Guimarães, sócio do Senna, ficou muito transtornado. Pois ele olhava para os dois e eles, assustados. O Galvão balançava as pernas o tempo todo. Ele tinha um pano que passava no rosto e fazia isso direto, pois suava que nem um rio. E isso me levou a ficar mais calmo. Pensei: “Alguém tem que ficar mais calmo, aqui”. O Galvão chegou ao ponto de, como a cabine de Imola era mais estreita, passar por cima de mim e sair para respirar. Eu fiquei no microfone e falei direto, por uns bons cinco minutos.

Que horas vocês souberam da morte dele? Foi durante a corrida?
Na verdade, para mim ele não saiu de lá com vida o tempo todo. Saiu tecnicamente vivo, mas morte cerebral. Isso para mim era claro. Não no primeiro momento, mas a demora dos médicos, a posição do pé, o sangue todo que ficou, sabendo que era da cabeça, para mim ele saiu de lá morto. Não cheguei a comentar isso com o Galvão naquele momento, mas sei que o Galvão tinha a mesma consciência. Quando ele encerrou a transmissão e deu a deixa, ele se mandou para Bolonha, onde encontraria o (Gerhard) Berger, o Braguinha (Antonio Carlos Braga, empresário e amigo de Senna) e todos que para o hospital tinham ido. Eu tive que segurar mais tempo lá, pois nos tornamos uma central técnica. Como o técnico de som (Cláudio Amaral) estava comigo, ficamos lá e tínhamos o (Roberto) Cabrini via celular do hospital. E o Cabrini, ao invés de ligar para o Brasil, fazia isso para nós, para equalizar o áudio que chegaria ao Brasil. Então eu soube tudo em primeira mão, oficialmente. Aquele boletim do Cabrini, “estou dando a notícia que não gostaria de dar…”, passou primeiro por mim e pelo Cláudio Amaral, antes de chegar ao Brasil. E também o Rubinho ficava me ligando da Inglaterra toda hora para saber notícias. Ele me ligou exatamente quatro vezes e eu fui falando aos poucos: “Olha, é grave pra caramba”, “Olha, é muito grave”… Até que ele ligou e perguntou: “Morreu?”, eu falei que sim. O Rubinho foi informado por mim.

Com Reginaldo na época da entrevista, em 2008 (Bruno Terena)
Com Reginaldo na época da entrevista, em 2008 (Bruno Terena)

Em diversos momentos você falou sobre isso, e agora aproveito para perguntar: como foi sua briga com o Ayrton?
Chegou no ouvido dele muita informação de coisa que tinha acontecido e não partido exatamente de mim. Por exemplo: em Monza, Monza (ressaltando o local), em 1990, terminada a corrida, fui jantar com um grupo de amigos num restaurante que íamos sempre, próximo ao hotel. E lá estavam várias pessoas: jornalistas, amigos do Ayrton e um ex-piloto, Mário Patti Jr., o Keko, que correu de F-3 com o Nelson Piquet. Ele não gostava muito do Ayrton. Quando falaram na mesa sobre as namoradas do Ayrton, esse Keko, que já estava meio alto, começou a falar: “Que namorada, que nada”. Houve uma reação na mesa e vi que a situação ficou ruim. Peguei o Keko, tirei-o da mesa e falei: “Keko, você está sendo indelicado. Tem muitas pessoas aí que são amigas dele”. Ele entendeu a situação, pegou um táxi e foi embora para o hotel dele. Ele foi parar ali não sei nem como. Bom… Aí acabou essa parada toda, passou, e foi para a minha surpresa que, um dia, o pai do Ayrton, Seu Milton, e o primo dele, cujo nome esqueci agora, mas não tem a menor importância, me chamaram para conversar. Eles tinham umas dúvidas, tal, e comentaram sobre um programa em que eu tinha sido entrevistado pelo Marco Antonio Rocha na TV Record. Quando me perguntaram sobre o Alain Prost, respondi que ele era um cara decente, digno, rival do Senna, mas era um cara bacana, que dava atenção para a imprensa e bastante atenção para mim, um jornalista brasileiro. Só isso. Eles me disseram: “Você é o único brasileiro que fala bem do Prost no país”. Eu falei: “Bom, acho que é mérito meu, pois conheço melhor o cara do que os outros”. Os caras viraram bichos. Como se eu não pudesse falar bem do francês. Bom… Saí de lá meio estremecido com eles e, evidentemente, essa conversa foi relatada ao Ayrton. Em seguida, veio o GP da Espanha, em Jerez. A Globo resolveu fazer o “Globo Repórter” com o Ayrton Senna e quem o fez foi o Ernesto Rodrigues, autor do melhor livro já publicado do Senna na história. Jamais haverá outro tão bom, tão fiel. E aí, o Ernesto, que era fã do automobilismo, curiosamente do Piquet, mas era um jornalista de verdade, fiel, correto, foi incumbido de fazer o programa. E ele me passou uma mensagem por telex dizendo que eu teria de deixar todas as matérias do “JN” e do “Sinal Verde” para o Galvão, e fazer as entrevistas e os textos do “Globo Repórter”. O Galvão não gostou. Ele achou que ele tinha de participar. Direito dele de defender isso, mas era ordem da Globo. Estava seguindo ordens. E aí, se ele tivesse conversado comigo ou mesmo se conversássemos ele, Ernesto, Senna e eu, a gente chegaria a um acordo, faria meio-a-meio, pois eu adorava fazer o “Sinal Verde”, não queria deixar de fazê-lo. Mas não teve isso. Imediatamente, a ala do Senna tomou a decisão de que ele não faria comigo a entrevista do “Globo Repórter”. O Ernesto foi até o Ayrton para marcar a entrevista comigo. O Senna disse: “Está bem, mas com o Reginaldo eu não vou fazer. Só faço se for com o Galvão”. Papel do Ernesto: comunicar a Globo de que o Galvão faria o programa. Para ele, não importava quem, ele precisava que a entrevista fosse feita. Foi correto, me chamou, relatou a situação e eu disse: “É evidente que você precisa do Ayrton no programa, o resto não interessa, eu faço o resto e ainda fico com o “JN” e “Sinal Verde”, quanto a isso está ótimo pra mim, mas é uma situação muito estranha o cara, seja quem for, começar a impor regras para jornalistas”. Ali foi decretado um rompimento. A corrida seguinte era o Japão. E, no Japão, o Galvão talvez não fosse, o que acabou acontecendo. Naquela época, o avião saía de São Paulo e fazia uma escala antes no Rio. Estava esperando a ala carioca entrar, entre eles o Celso Itiberê, e o Galvão não entrou. Não sabia se ele iria, pois não estava falando com ele, e pensei: “Bom, ele deve ir amanhã, ou já foi”. O Celso sentou ao meu lado no avião, ficamos conversando e ele me confirmou que o Galvão não estaria no Japão. Acabei sabendo também que o Ayrton não daria entrevista para mim. O Celso sabia disso, eu não. O Edgard Mello Filho também sabia, segundo me disse depois. Até então eu pensava que aquilo da Espanha tinha sido um caso isolado, coisa do “Globo Repórter”. Pensei: quando chegar lá, resolvo o problema. Cheguei lá, olha a situação: teve o treino de sexta-feira, fiz todas as minhas entrevistas e, quando chegou a vez do Senna, com câmera e microfone, ele falou: “Com você eu não falo”. E passou reto. Ainda comentei: “Não é comigo que você vai falar, é com o telespectador, com o brasileiro”. Ele nem respondeu. Fechei minha matéria sem ele, mandei o satélite e comecei a entrar em contato com a Globo, relatando o que aconteceu. Disse que teria uma solução e eles me perguntaram qual. Propus o Celso, que era do “O Globo”, da casa. Ele fez a entrevista e eu fiz o resto da matéria. Por sinal, o cinegrafista japonês cortou o boné do Banco Nacional. E, claro, o Senna acabou me culpando por isso. Eu que nem cheguei perto na hora da entrevista. Era mais uma das tantas que eles imaginavam e faziam virar verdade. E haveria ainda tantas outras, que passei a não me incomodar mais. Um dia talvez eles caíssem na real. Quando acabou o campeonato, a Globo tomou uma decisão correta. Tirou os dois do ar, eu e o Galvão. E ficamos fora do ar em dezembro, janeiro, fevereiro… Me lembro bem desse detalhe, pois a decisão foi tomada no dia em que eu tinha feito uma puta matéria em Interlagos com o Zico andando num carro de Stock Car. Ele guiando. Fiquei feliz, editei uma matéria maravilhosa para o “Esporte Espetacular”, mas veio a ordem e a matéria foi para o lixo. Ficamos fora do ar e, quando era para voltar, o Galvão negociou com a Rede OM, que era a Gazeta, e se mudou para Curitiba, iniciando o que ele achou que seria uma carreira nova, solo, não com corrida, mas como diretor de esportes da emissora. Uma coisa nova. Ele podia ter se dado muito bem, não fosse culpa do próprio canal. E aí, lembro que na despedida dele, eu estava no Rio e ele foi falar comigo. Foi bem gentil, bem bacana. Disse: “Olha, foi um período nosso, a fase passou, mas é algo que nenhum dos dois vai esquecer. Tchau”. Achei que a gente nunca mais voltaria a trabalhar junto.

Você chegou até a ser afastado das transmissões da F-1 neste período, né?
Nesse primeiro momento, foram afastados os dois. Quando o Galvão saiu, começou o campeonato seguinte na África do Sul, fomos o Luiz Alfredo e eu. Mas continuou aquela coisa dentro da Globo. “Será que vai ficar ruim? Que deu a impressão de que alguém ganhou a briga?”. E me afastaram da cobertura. Isso foi em 1992. Aí aconteceu o seguinte, as coisas do destino… Estava fora da F-1 e buscando um outro nicho dentro da Globo. O Emanuel (Castro) me falou: “Tem aí um Pré-olímpico de basquete, estamos investindo em basquete masculino, pode ser um bom caminho pra você, que tem uma boa experiência internacional. O torneio será em Portland e você pode começar a desenhar um caminho novo”. Legal. Maravilha. Estava escalado para ir a Portland em junho, se não me engano. Aí o Piquet bateu em Indianápolis. Ele saiu das operações, começou a fazer a recuperação, e o telefone tocou na minha casa. Era ele, que falou comigo rapidinho. “Tem uma coisa que eu queria falar com você, mas vou deixar o Lua falar por mim”, disse. Passou o telefone pro Lua (Carlos Cintra Mauro) e ele me disse: “Olha, está todo mundo em cima do Nelson para fazer a entrevista. Tem a Bandeirantes, o SBT, a Manchete, o jornal “O Globo”, outros jornais, tal. Você sabe que ele não gosta muito disso e me pediu para ligar e propor uma exclusiva com você”. Respondi para o Lua: “Muito obrigado, é uma prova de amizade, sentimento, fidelidade, mas o evento é da Bandeirantes. Quero ver se a Globo vai querer”. E fui conversar com a redação, com meus chefes. Teoricamente, sabia que não era política dar força para um evento da concorrência. Mas tentei. Passei por vários escalões até chegar na direção do jornalismo. O Ernesto Rodrigues conhecia bem o (Carlos Henrique) Schroder e o Alberico (Souza Cruz), que era o diretor. Eu falei: “Ernesto, aconteceu isso, o que eu faço?”. Ele respondeu: “Olha, é um pepino. Um evento da concorrência, tal. Mas conheço bem o Schroder, ele é extremamente competitivo. Se ele comprar a idéia como sendo uma coisa que a Globo está furando a concorrência, ele topa”. Bem, relatei isso pro Schroder, morrendo de medo, e ele falou: “Me dê cinco minutos”. Foram precisos apenas três. Ele me retornou a ligação e disse: “Pode embarcar”. Aí eu fui para Nova York, peguei o equipamento, o pessoal, e partimos para Indianápolis. Fizemos a matéria, aquela coisa toda, voltamos, uma baita dificuldade. Mandamos gravar na Europa depoimentos de vários pilotos desejando boa recuperação ao Piquet. Os pilotos estrangeiros falaram em inglês. O (Mauricio) Gugelmin falou em português e o Senna, em inglês. Fizemos a edição toda em Nova York, mandamos para o Brasil e a matéria foi um puta sucesso. Oito minutos e 15 dentro do “Fantástico”. Você sabe o que significa isso? Puta sucesso. A repercussão foi enorme. O pessoal do escritório de Nova York se reuniu na casa de um deles para comemorar, com churrasco, caipirinha, tal. Uma comemoração de um resultado bem feito. Voltei para o hotel, dormi e, de manhã cedo fui para a Globo de NY. Chegando lá, tinha um telex do Luis Fernando Lima, dizendo: “Bem vindo de volta à F-1, de onde você nunca deveria ter saído. Luis Fernando”. Fiquei maravilhado com aquilo. Claro que contou tudo, a repercussão da matéria, uma série de coisas. Tinha ficado fora da F-1 nas últimas quatro corridas. E aí, em Nova York, fui fazer o visto para a corrida seguinte, no Canadá. Enfim, voltei.